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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A realidade Auschwitz



A realidade Auschwitz

A administração da morte era rápida, silenciosa e cruel. Não havia justiça, não havia lei, nem esperança, nem futuro, nem gente a quem implorar pela vida.
A 27 de Janeiro de 1945, o Exército soviético chegou às instalações do campo de concentração alemão nazi em Auschwitz. A guerra estava perto do fim. Ao entrar, os soldados encontraram cerca de sete mil doentes, aleijados, gente magoada e a morrer num clamor de horror. Nos dias anteriores, cerca de dez vezes mais prisioneiros, aparentemente capazes de andar, tinham sido forçados a deixar o campo, empurrados, arrastados, espancados, amaldiçoados, e a marchar em direcção a Wodzislaw, uma cidade a cerca de 55 quilómetros a oeste. Iam mal vestidos para o Inverno polaco, estavam desnutridos ou com fome, muitos não tinham sapatos. Eles foram os sobreviventes da história mais horrível do século XX.
Desde Maio de 1940 que esta bizarra "zona de desenvolvimento" tinha sido criada em redor de um quartel de artilharia abandonado do Exército polaco. Rapidamente o primeiro acampamento, Auschwitz I, se tornou sobrepovoado com presos, ou, mais apropriadamente, com pessoas escravizadas, privadas de identidade, direitos, voz, privacidade e, na verdade, privadas da sua humanidade.
Os alemães executaram esta operação em território polaco, provavelmente, devido à localização conveniente, ao longo dos caminhos-de-ferro vindos de leste e oeste, norte e sul. Não só encarceraram inimigos políticos do regime, intelectuais de esquerda ou qualquer suspeito de ser um inimigo, como também pretendiam criar uma força de trabalho para ser usada mais tarde pela SS através de disposições individuais. Para além de tudo isto, grandes grupos de pessoas estavam catalogadas (não condenadas e não havia tribunais) e condenadas a serem eliminadas.
Em Outubro de 1941, o primeiro projecto cresceu, com a construção de Auschwitz-Birkenau, que estava preparado para conter quatro grandes fornos crematórios. Auschwitz era uma fábrica de morte. As contagens de cabeças provocam imagens aterrorizantes. A repartição das deportações por países, em números aproximados, é: Hungria: 426.000; Polónia: 300.000; França: 69.000; Holanda: 60.000; Grécia: 55.000; Boémia e Morávia: 46.000; Eslováquia: 27.000; Bélgica: 25.000; Jugoslávia: 10.000; Itália: 7500; Noruega: 690; outros: 34.000.
Entre o final de Abril e o início de Julho de 1944, cerca de 426 mil judeus húngaros foram para Auschwitz. A SS enviou 320.000 deles directamente para as câmaras de gás em Auschwitz-Birkenau. No total, 1,1 milhão de judeus foram deportados para Auschwitz. Cerca de 200.000 outros entraram, incluindo 140.000-150.000 polacos não judeus, 23.000 ciganos e Sinti (ciganos), 15.000 prisioneiros de guerra soviéticos e 25.000 outras pessoas (civis soviéticos, lituanos, checos, franceses, jugoslavos, alemães, austríacos e italianos). A humanidade dos indivíduos foi reduzida ou posta à prova.
Uma pessoa descreveu a dialéctica do encontro de dois grupos de prisioneiros: os recém-chegados arrebanhavam-se de sobretudos longos a condizer com as malas e os seus escassos bens materiais. Aqueles que já lá estavam marchavam em fileiras e esquadrões, privados de qualquer coisa. Havia uma antinomia entre os vestidos e os nus, estes últimos eram ignóbeis e propensos à violência, sem uma palavra. Qualquer coisa material, qualquer objecto da vida anterior, mesmo um tostão, lhes daria uma falsa sensação de segurança, indicando a linha de demarcação entre aqueles marcados para a eliminação imediata e aqueles que compravam o sonho de ter talvez uma hipótese.
A administração da morte era rápida, silenciosa e cruel. Não havia justiça, não havia lei, nem esperança, nem futuro, nem gente a quem implorar pela vida. Guardas e soldados alemães e estrangeiros desenvolveram uma forma de colocar completamente a sua vida privada fora dos arames farpados e retirá-la das atrocidades quotidianas que eram cometidas. Tentar não morrer de doenças comuns, enquanto se aguardava a morte na câmara de gás era uma filosofia de sobrevivência. Crianças que nasciam lá e que não podiam ser um dos 700 eram mortas. As crianças que iam para o acampamento eram também mortas, frequentemente por injecção letal.
Relatos contemporâneos do processo, chamado Holocausto, apontam para o facto de que a grande escala, o extermínio em massa de grupos étnicos foi um processo planeado e racionalmente organizado. Zygmunt Bauman sugere que Auschwitz deu à humanidade a oportunidade de empregar cegueira ética. Theodore Adorno sugere que o Holocausto foi um trampolim no processo de administração de energia pura, dominação e alienação das vítimas pelos agressores. Muitos dos dominadores e abusadores, quando a guerra terminou, só terão sido capazes de viver vidas quase normais porque colocaram uma barreira nesse passado e nunca a ultrapassaram – ao contrário das vítimas sobreviventes que nunca foram capazes de pôr a vida em ordem e viveram despedaçadas, de personalidade fragmentada e assombradas pelas recordações.
É por isso que preservar a memória histórica se tornou uma importante ferramenta educacional e social para nos certificarmos de que nenhum Holocausto jamais voltará a acontecer. A 27 de Janeiro de 1945, na estrada para Wodzislaw, o meu avô Felix foi espancado até a morte com as coronhas das armas. Ele estava fraco de mais para andar. Havia sobrevivido milagrosamente, mas não conseguia marchar. Quarenta e oito dos seus primos morreram nos crematórios. Fui criado como filho único, só que pior – eu não tinha tias, tios, primos, avós, ninguém. Eu não tive Verões passados na casa do meu avô, nem o luxo de ter a minha avó a ler-me contos de fadas. As memórias dos meus pais de alguma forma pararam quando a guerra começou, e os relógios só recomeçaram depois de os soviéticos libertarem os territórios polacos.
Hoje, na sequência de actos de violência sem sentido contra cidadãos inocentes, seja no 11/09, em Madrid, Paris ou Londres, temo que a obsessão com a etnia, a religião ou a limpeza de minorias, o destacamento de missões assassinas a partir de qualquer característica étnica da nossa civilização para realização de crimes simbólicos ou homicídios em massa esteja, infelizmente, mais uma vez na mente das pessoas; provavelmente nunca deixou de estar. No meu próprio trabalho sobre fundamentalismos (1992), foquei-me na confusão epistémica, no facto de que uma ausência de coordenadas cognitivas e normativas torna possíveis fenómenos como o Holocausto, o terrorismo e todas as outras formas de violência baseadas no ódio. É por isso que, mais do que nunca, precisamos de entender bem o mecanismo que permite a separação desumana entre valores e a sua prática. No 70.º aniversário da libertação do campo de Auschwitz nós, polacos, nós, europeus, lembramos as atrocidades, ainda investigamos os mecanismos e tentamos sarar a ferida do Holocausto. Lembrar não é entender. Nunca entenderemos. Nunca aceitaremos tais atrocidades profundamente desumanas. Mais do que ninguém, todos nós trazemos cicatrizes nas nossas recordações, cicatrizes que resultam da ausência dos nossos avós, tios, primos e amigos, cicatrizes que resultam da nossa solidão.
Embaixador da República da Polónia em Portugal

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