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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O mistério dos camiões do São Carlos

José Pedro Castanheira
Jornalista

Devia ter sido feito em segredo e pela calada da noite, mas o desvio de centenas de quilos de documentos da PIDE/DGS, no auge do Verão Quente de 1975, foi testemunhado pelo próprio comandante da PSP de Lisboa
Foi numa noite do Verão Quente de 1975 em que havia Conselho da Revolução. O comandante da PSP de Lisboa estava a comer no restaurante Belcanto quando um dos donos o alertou. No Largo de São Carlos, ao pé da ópera, estavam estacionados dois camiões da Armada, para onde um grupo de marinheiros ia transportando caixotes trazidos, escadas abaixo, das ruas vizinhas. Seriamente intrigado, o tenente-coronel José Aparício mandou dois dos seus homens investigar. Os volumes vinham da antiga sede da PIDE/DGS, a polícia política da ditadura, na Rua António Maria Cardoso. Assim que os camiões se puseram em marcha, foram seguidos por dois subchefes da PSP numa viatura à paisana. Quando regressaram ao Comando da Rua Capelo, os graduados contaram que os camiões foram diretamente para o aeródromo militar de Figo Maduro, contíguo ao aeroporto da Portela, tendo transferido a mercadoria para um aparelho da Aeroflot, a companhia de aviação da União Soviética. 

Testemunha. O coronel José Alberto Aparício, 
de 79 anos, junto à antiga sede da PIDE/DGS (hoje, um condomínio de luxo)
TIAGO MIRANDA

Foi o antigo general do KGB Oleg Kalugin quem, em 1994, confirmou nas suas memórias o que há muito se suspeitava: o desvio de inúmera documentação da PIDE/DGS para Moscovo. Mais tarde, esta operação foi documentada de forma insofismável por Vasili Mitrokhin, ex-arquivista-chefe de um dos principais departamentos dos serviços secretos soviéticos. O Expresso, através do seu correspondente em Londres, Paulo Anunciação, teve acesso ao famoso arquivo Mitrokhin, que se encontra depositado na Universidade de Cambridge, onde o antigo alto funcionário do KGB pormenoriza parte do conteúdo do acervo documental desviado para a então União Soviética, num total de 474 quilos.
Não sendo capaz de datar de forma rigorosa a operação que testemunhou, o comandante distrital da PSP de Lisboa da altura, tenente-coronel José Aparício, garante ao Expresso que “foi no verão de 1975, muito provavelmente no tempo dos governos de Vasco Gonçalves. Fiz um relatório para o Comando-Geral da PSP. Durante muitos anos guardei uma cópia desse e de outros documentos, mas que decidi destruir. Hoje, tenho pena...”

NOMEADO POR COSTA GOMES NA ASSEMBLEIA DO 11 DE MARÇO
José Aparício fora nomeado comandante da PSP de Lisboa logo a seguir ao 11 de março de 1975, na sequência do malogro do golpe de Estado liderado pelo ex-Presidente da República, general António de Spínola. O oficial já estivera em comissão de serviço na PSP antes do 25 de Abril. “A primeira vez que estive na PSP foi em 1969, era capitão, num intervalo entre duas comissões” em África. A última fora na Guiné, e seguir-se-ia mais uma, em Moçambique, de onde regressou, já major, em finais de 1973. Voltou para a PSP uma semana antes do golpe dos capitães. “Estava colocado no Regimento de Infantaria Nº 10, em Aveiro. Convidaram-me para ir de novo para a PSP de Lisboa e aceitei.”
O Comando da PSP na capital estava instalado na Rua Capelo, paredes meias com o Governo Civil de Lisboa — no espaço onde foi recentemente instalado o Museu da Polícia de Segurança Pública. No 25 de Abril de 1974, o comandante era o coronel Pedro Barcelos. “Era um homem do curso do Spínola, que também estivera na guerra civil de Espanha, mas que se portou muito bem.” O major Aparício era o oficial de operações. Consumado e vitorioso o golpe dos capitães, Spínola, o novo Presidente da República, colocou à frente da PSP de Lisboa um dos seus homens de confiança, o major Casanova Ferreira, que manteve Aparício no mesmo cargo. “O Casanova não deixou que houvesse um único saneamento político na PSP.”

Aparício não estranhou o pedido de Costa Gomes. “Conhecia-o bem. Durante o período revolucionário, dava-nos muitas vezes ordens diretas, passando por cima do ministro da Administração Interna, que tinha a tutela da PSP, e do próprio primeiro-ministro.” Nessa mesma noite, num intervalo da Assembleia, Costa Gomes comunicou a Aparício que seria nomeado novo comandante da PSP de Lisboa. Dependia hierarquicamente do general Pinto Ferreira, o comandante-geral da GNR, que passara a acumular com a PSP. Além disso, “passei também a despachar com o COPCON para as questões de ordem pública”. Espécie de braço armado da revolução, o Comando Operacional do Continente (COPCON) era chefiado pelo general Otelo Saraiva de Carvalho. “Ia regularmente aos briefings do COPCON, no forte do Alto do Duque, com o Otelo.” Pouco depois, foi promovido a tenente-coronel.
Em 1975 frequentou um curso intensivo em Inglaterra. “Foi o general Pedro Cardoso, que era o ‘patrão’ das informações militares no EMGFA, que me mandou. Éramos quatro, entre os quais o major Cuco Rosa, da Polícia Militar. Os britânicos ajudaram-nos muito a aprender a lidar com manifestações e situações de violência urbana.” Do seu currículo na PSP constam ainda vários cursos nos EUA, França e Israel.
Inspirado na experiência britânica, “passámos a reunir em joint committees: nós, a PJ de Lisboa, a GNR, a Guarda Fiscal, os serviços de informações, os bombeiros. As reuniões eram normalmente no meu Comando ou na PJ, na Gomes Freire. Éramos mais ou menos dez, mas operacionais, não políticos. Havia uma partilha permanente de informação, de tal modo que eu sabia quase tudo o que se passava em Lisboa.” A cooperação entre os serviços era a palavra de ordem. “Só depois é que começaram a construir muros entre as várias quintas...” À sua disposição, a PSP de Lisboa possuía uma rede de rádios portáteis Motorola, “com pagers para nos chamarmos uns aos outros”. O material havia sido adquirido “antes do 25 de Abril, mas ainda estava em fase experimental”.
Durante o Verão Quente de 1975, “sempre que havia reuniões do Conselho da Revolução, a gente não saía do Comando”. Principal órgão do poder político e militar, o Conselho da Revolução tinha reuniões com desfecho imprevisível. Prolongavam-se muitas vezes pela noite fora, não raro até ao nascer do sol. Havia decisões tomadas na hora, a que havia que dar cumprimento imediato — e a PSP, tal como o COPCON, tinha de estar disponível. “Ao lado do meu gabinete tinha um quarto com uma cama. Dormi ali muitas noites. E não era só eu: também os comandantes de Divisão, responsáveis por várias zonas da cidade, quase todos eles oficiais do meu curso.”

“CONHECI MUITOS DOS AGENTES DO KGB”
Uma vez que a messe da polícia encerrava depois do jantar, durante a noite, “quando era preciso, íamos comer ao Belcanto, que passou a ser uma espécie de cantina”. Um dos restaurantes mais afamados do Chiado — hoje dirigido pelo chefe José Avillez —, a uma trintena de metros da PSP, o Belcanto tinha uma freguesia muito variada. Desde meninas que se dedicavam ao engate até melómanos e amantes de ópera, que ali ceavam nas noites de récita no Teatro de São Carlos, passando por políticos, homens de negócios e — nos anos efervescentes de 1974 e 1975 — pessoal dos serviços de espionagem que se haviam instalado em Lisboa. “A fina-flor dos serviços secretos estrangeiros estava em Lisboa. Sabíamos que muitos deles ficavam no Hotel Tivoli.”

Caos 1. Militares da Marinha (e Exército) fazem guarda à sede nacional da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, após a tomada do edifício, a 26 de abril
RUI OCHÔA

“Pelo Belcanto passava sobretudo gente dos serviços ocidentais. Pelo menos que eu soubesse.” Aparício, no entanto, também conhecia os soviéticos — desconfiando desde sempre que pertenciam ao KGB, o que o arquivo Mitrokhin viria a confirmar. “Conheci muitos dos nomes referidos no Expresso. Encontrava-os muitas vezes nas receções das embaixadas. O Semenychev era o mais relevante: era o primeiro-secretário da embaixada, mais importante do que o próprio embaixador. Era um prazer conversar com ele: um tipo muito culto e inteligente. Tentou convencer-me a aprender russo para melhor poder ler autores como Tolstói e Dostoiévski... Foi um dos ‘diplomatas’ russos expulsos em 1981 pelo governo de Sá Carneiro... Outros dois que também conhecia eram o Boris Kesarev, chefe da delegação comercial, e o correspondente do jornal ‘Izvestia’, Viktor Nesterov.”

Caos 2. Um jornalista britânico consulta diversa documentação numa sala
MIRANDA CASTELA
“CHAMEI DOIS SUBCHEFES MUITO BATIDOS E MANDEI-OS SEGUIR OS CAMIÕES”
Numa das muitas noites em que havia Conselho da Revolução, José Aparício foi como de costume ao Belcanto. “Seriam umas onze e meia, estava a comer qualquer coisa, quando o Aurélio, que era um dos sócios, veio ter comigo: ‘Venha ali ver uma coisa’, disse com ar misterioso. E levou-me para o exterior.” O Teatro de São Carlos estava encerrado e no largo não havia quase vivalma. A não ser dois camiões com a traseira encostada ao muro fronteiro, de onde se desce pelas escadas que fazem a ligação à Rua Paiva de Andrada. Aparício apurou o olhar e percebeu de imediato que eram dois camiões militares de carga, de caixa fechada de lona. As matrículas eram da Marinha, facilmente identificáveis por começarem pelas letras ‘AP’, de Armada Portuguesa. Em redor, o movimento era intenso, com marinheiros a descerem as escadas com caixotes nos braços, que depositavam no interior dos camiões. “Pareciam dois grupos, num total de uma dezena de marinheiros — ou pelo menos fardados de marinheiros —, aparentemente comandados por um sargento.”

Caos 3. Os responsáveis da polícia política deixaram deliberadamente os papéis de forma caótica e desorganizada
MIRANDA CASTELA
Não tendo competência para intervir em situações envolvendo a Marinha ou qualquer outro ramo das Forças Armadas — só a Polícia Militar o poderia fazer —, mesmo assim Aparício tratou de averiguar o que se passava. Atravessou a Rua Capelo e entrou no Comando da PSP. “Chamei os dois primeiros homens que encontrei. Estavam à paisana, eram da Secção de Justiça, e mandei-os ver o que se passava, donde vinham aqueles marinheiros e o que transportavam. Eles subiram ao Largo do Chiado, entraram discretamente pela Rua António Maria Cardoso, foram andando até à sede da PIDE/DGS e vieram ter comigo ao Comando.” Era do interior das instalações da extinta polícia política da ditadura que estava a sair a misteriosa mercadoria, que os marinheiros transportavam pela António Maria Cardoso; passado o Teatro São Luiz, viravam à direita na Travessa dos Teatros, seguiam à esquerda pela Paiva de Andrada e, em frente do night club Nina (que não deixava de fazer concorrência às meninas do Belcanto), desciam as escadas que conduzem ao Largo de São Carlos, onde acondicionavam as caixas nos camiões. 

Caos 4. Parte do armamento encontrado no interior ainda foi utilizado pelos ‘pides’, que dispararam sobre civis, fazendo cinco mortos
MIRANDA CASTELA

UM “RELATÓRIO IMEDIATO” PARA O COMANDO-GERAL DA PSP
De regresso ao Chiado, os dois subchefes fizeram um relato ao comandante, que, por sua vez, redigiu um “Relatório Imediato”. “Era uma informação elementar, própria daquele tipo de relatórios. Seriam umas dez linhas, quase telegráficas.” Como era norma, afiança o agora coronel, “o relatório foi enviado para o Comando-Geral da PSP, e decerto que também para o COPCON. Além disso, falei no caso a vários camaradas de armas, incluindo alguns amigos meus que pertenciam ao Conselho da Revolução. Lembro-me de também ter falado ao general Galvão de Melo, porque tinha sido o primeiro responsável da Junta de Salvação Nacional pela Comissão de Extinção da PIDE/DGS. Mas ninguém ligou nada a isto”.
Numa investigação sumária, a PSP procurou identificar e localizar os camiões a partir das matrículas da Armada. “Pedi aos meus serviços que os descobrissem, mas nenhuma das matrículas existia.” Ou seja, “eram falsas”. Anos mais tarde, “pedi a alguns camaradas da Marinha para tentarem saber o que se passara, mas nunca conseguiram apurar nada”.

Caos 5. Na delegação do Porto, um grupo de civis (entre os quais jornalistas) consulta os muitos milhares de fichas feitas e guardadas pela PIDE/DGS
MIRANDA CASTELA
José Alberto Aparício manteve-se à frente da PSP da capital até 1980. Viria a ser substituído no governo da Aliança Democrática, presidido por Francisco Sá Carneiro. Coronel na reforma, hoje com 79 anos, é um dos militares que acumulou mais experiência na PSP em termos operacionais. Não duvida: “A operação foi muito bem montada. Foi escolhida uma noite em que estava reunido o Conselho da Revolução, em que sabiam que não haveria ninguém nas instalações da António Maria Cardoso. Os camiões ficaram estacionados suficientemente longe da sede da PIDE, para não levantar muitas suspeitas.” Aliás, nem poderiam ficar parados diante do edifício, uma vez que não deixariam os carros elétricos circular — é por ali que passa a famosa carreira 28 da Carris. “As matrículas eram falsas e nada me diz que os marinheiros não o fossem: podiam ser civis disfarçados com fardas da Marinha. E no aeródromo de Figo Maduro estava tudo preparado para os receber. Pode escrever: eram profissionais com todos os efes e erres.”
Aparício é incapaz de dar uma data. “Foi no verão de 1975, muito provavelmente ainda no tempo do Vasco Gonçalves como primeiro-ministro. E na vigência do general graduado Pinto Ferreira no Comando-Geral da PSP. Esteve lá até 29 de setembro de 1975 e desde que foi substituído nunca mais me falou.” À demissão de Pinto Ferreira não terá sido alheio o assalto e incêndio, três dias antes, da embaixada de Espanha em Lisboa, a que as forças de segurança assistiram de forma passiva.
“HÁ COISAS QUE NUNCA SE ESQUECEM NA VIDA”
O Expresso contactou o Ministério da Administração Interna no sentido de localizar o relatório enviado para o Comando-Geral da PSP pelo seu então comandante distrital, tenente-coronel Aparício. A resposta, transmitida pelo gabinete da ministra Constança de Sousa, foi negativa: “Apesar das diligências do Departamento de Sistemas de Informação e Comunicações [DSIC] da Polícia de Segurança Pública, não foi possível encontrar qualquer documento referente ao tema.”
Igualmente contactado foi o então comandante do COPCON, a quem Aparício admite que também enviou uma cópia do relatório. “Não me lembro de qualquer relatório desse género”, afirmou o coronel Otelo Saraiva de Carvalho. “Lembro-me muito bem de ter o José Aparício nos briefings matinais do COPCON — designadamente no dia do assalto ao consulado e à embaixada de Espanha, em que a PSP não fez nada. Mas esse tal relatório nunca o vi e nunca ouvi falar dele. E estou autorizado a dizer que o mesmo aconteceu com o coronel António Jorge Cardoso, que era o chefe da Repartição de Informações do COPCON, com quem falei.” Otelo, que tem acompanhado as revelações do Expresso a partir do arquivo Mitrokhin, acredita que “a maior parte da documentação terá sido levada para Moscovo não durante o PREC mas logo a seguir ao 25 de Abril, quando se formou a Comissão de Extinção da PIDE/DGS”.

Acervo. O arquivo da PIDE/DGS, depositado na Torre do Tombo, em Lisboa, devidamente guardado, organizado e com acesso público (em cima). Dois “boletins de informação” elaborados pela PIDE sobre o cidadão Francisco da Costa Gomes, futuro Presidente da República e marechal (em baixo)
RUI OCHÔA E LUÍS FILIPE CATARINO


Durante alguns anos, Aparício conservou uma cópia do relatório, que entretanto decidiu queimar. “Destruí há alguns anos pelo fogo, na Beira Baixa, o que pessoalmente tinha guardado do tempo do PREC.” Entre o material que guardara incluíam-se “cópias dos mandados de captura do COPCON enviados à PSP e nunca cumpridos; relatórios de alguns acontecimentos em que a PSP teve intervenção nesses tempos envolvendo figuras hoje importantes e ainda no ativo; notas de algumas reuniões importantes; notícias e informações de ‘rasquices’ e ‘baldas’ de muitos intervenientes desses tempos revoltos; fitas de gravação de comunicações telefónicas de, e para, o telefone direto que tinha no meu gabinete”. Até que chegou um dia em que “decidi destruir tudo. Reuni tudo o que tinha, e algum tempo depois, zás, tudo ficou em cinzas”. “Hoje penso que fiz bem”, mesmo tendo “consciência que sob o ponto de vista histórico fiz mal”.
Quanto a outras testemunhas, “infelizmente já ninguém está vivo: nem os dois polícias que mandei fazer o reconhecimento do terreno, nem os subchefes que seguiram os camiões, nem o meu amigo Aurélio, sócio do Belcanto, nem o general Pinto Ferreira, a quem apresentei o relatório”. José Aparício confia, porém, na sua (excelente) memória. “Há coisas que nunca se esquecem na vida. Uma delas, por exemplo, é a origem do avião que levou os caixotes da PIDE. É que não era um avião da TWA, era da Aeroflot, não sei se me faço entender...”
O conteúdo dos caixotes só viria a ser conhecido em 1994, através do antigo general do KGB Oleg Kalugin. No seu livro “Memórias de Um Espião”, aquele dissidente soviético refere a audaciosa operação que consistiu no transporte, num camião, de uma “montanha de dados classificados” para a embaixada da União Soviética em Lisboa, de onde transitaram de avião para Moscovo. Muitos outros detalhes surgiram a público em 1999, com a revelação do arquivo Mitrokhin — o ex-arquivista-chefe de um dos principais departamentos do KGB. O livro “O Arquivo Mitrokhin. O KGB na Europa e no Ocidente”, da autoria do próprio Vasili Mitrokhin e do investigador britânico Christopher Andrew, foi traduzido e lançado em Portugal no ano seguinte, pela Dom Quixote. Mas os pormenores da rede portuguesa do KGB só recentemente foram divulgados pelo Expresso. Um dos apontamentos redigidos por aquele alto funcionário do KGB — que se refugiou em Inglaterra com todo o seu gigantesco acervo documental — confirma de forma inequívoca que, “no final de 1975”, a organização do KGB (ou rezidentura) em Portugal “recebeu do PCP” diverso material pertencente ao arquivo da PIDE/DGS.
José Aparício leu obviamente tanto o livro de Kalugin como o de Mitrokhin. Não se espanta, porque assistiu. “O general Kalugin só comete um erro: não foi um camião, foram dois. Ah! E não foram para a embaixada da URSS, foram diretamente para o aeroporto. A não ser que tenha havido mais do que uma operação!”
Devia ter sido feito em segredo e pela calada da noite, mas o desvio de centenas de quilos de documentos da PIDE/DGS, no auge do Verão Quente de 1975, foi testemunhado pelo próprio comandante da PSP de Lisboa
F0i numa noite do Verão Quente de 1975 em que havia Conselho da Revolução. O comandante da PSP de Lisboa estava a comer no restaurante Belcanto quando um dos donos o alertou. No Largo de São Carlos, ao pé da ópera, estavam estacionados dois camiões da Armada, para onde um grupo de marinheiros ia transportando caixotes trazidos, escadas abaixo, das ruas vizinhas. Seriamente intrigado, o tenente-coronel José Aparício mandou dois dos seus homens investigar. Os volumes vinham da antiga sede da PIDE/DGS, a polícia política da ditadura, na Rua António Maria Cardoso. Assim que os camiões se puseram em marcha, foram seguidos por dois subchefes da PSP numa viatura à paisana. Quando regressaram ao Comando da Rua Capelo, os graduados contaram que os camiões foram diretamente para o aeródromo militar de Figo Maduro, contíguo ao aeroporto da Portela, tendo transferido a mercadoria para um aparelho da Aeroflot, a companhia de aviação da União Soviética. 
Envolvido no golpe spinolista de 11 de março de 1975, Casanova Ferreira foi de imediato destituído. “Nessa noite, eu estava como habitualmente no Comando, quando fui chamado pelo general Costa Gomes.” O então Presidente da República estava no Instituto de Sociologia Militar, na Calçada das Necessidades — atual Instituto da Defesa Nacional —, onde dirigia a Assembleia do MFA. Uma reunião que passaria para a história como a “assembleia selvagem”, onde foi decretada a nacionalização da banca e dos seguros e recusada a pena de morte contra os golpistas.
 Caos 1. Militares da Marinha (e Exército) fazem guarda à sede nacional da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, após a tomada do edifício, a 26 de abril
 Aparício conhecia alguns. “Vi o Jacques Foccart no Belcanto mais de uma vez, logo a seguir ao 25 de Abril.” Foccart era um dos responsáveis dos serviços franceses de informação, muito atento a tudo quanto se passava em África, incluindo a lusófona... “Veio ver quem mandava nisto. Foi trazido pelo genro do Jorge Jardim, o comandante Themes de Oliveira, que eu conhecia muitíssimo bem.” O Belcanto era (e é) servido por duas portas, uma que dá para a Rua Anchieta, enquanto a principal está virada para o Largo de São Carlos. “O Foccart nunca entrava e saía pela mesma porta. E sei que o Marenches também lá foi — mas esse não o cheguei a ver pessoalmente.” Diretor do SDECE, os serviços secretos franceses, o famoso conde Alexandre de Marenches fora quem, na manhã de 25 de Abril de 1974, ao receber em Paris o subdiretor-geral da DGS, Barbieiri Cardoso, o informara de que estava a decorrer um golpe militar em... Lisboa.
 Caos 2. Um jornalista britânico consulta diversa documentação numa sala
 O Belcanto fora fundado, como muitos outros dos melhores restaurantes de Lisboa, por galegos, e não havia praticamente um dia em que Aparício não fosse lá. “Nem que fosse para tomar um café, que é talvez o meu maior vício. Ainda hoje sou capaz de beber uma dúzia de bicas por dia, mas na altura chegava às vinte...” Frequentador habitual, “conhecia todos os sócios e empregados. Informaram-me e avisaram-me de muita coisa que se passava na cidade...”
 Caos 3. Os responsáveis da polícia política deixaram deliberadamente os papéis de forma caótica e desorganizada
Não tendo competência para intervir em situações envolvendo a Marinha ou qualquer outro ramo das Forças Armadas — só a Polícia Militar o poderia fazer —, mesmo assim Aparício tratou de averiguar o que se passava. Atravessou a Rua Capelo e entrou no Comando da PSP. “Chamei os dois primeiros homens que encontrei. Estavam à paisana, eram da Secção de Justiça, e mandei-os ver o que se passava, donde vinham aqueles marinheiros e o que transportavam. Eles subiram ao Largo do Chiado, entraram discretamente pela Rua António Maria Cardoso, foram andando até à sede da PIDE/DGS e vieram ter comigo ao Comando.” Era do interior das instalações da extinta polícia política da ditadura que estava a sair a misteriosa mercadoria, que os marinheiros transportavam pela António Maria Cardoso; passado o Teatro São Luiz, viravam à direita na Travessa dos Teatros, seguiam à esquerda pela Paiva de Andrada e, em frente do night club Nina (que não deixava de fazer concorrência às meninas do Belcanto), desciam as escadas que conduzem ao Largo de São Carlos, onde acondicionavam as caixas nos camiões. 
 Caos 4. Parte do armamento encontrado no interior ainda foi utilizado pelos ‘pides’, que dispararam sobre civis, fazendo cinco mortos
Tudo aquilo pareceu muito estranho ao comandante da PSP. Interrogando-se sobre o que estaria a ser retirado da sede da PIDE — documentação?, armas e munições?, o que mais poderia ser? —, quis saber o seu destino. “Chamei dois subchefes muito batidos, da velha guarda, e mandei-os ver para onde iam os camiões. Lembro-me de que um era o Silva, o tipo mais eficaz que eu já conheci, sempre disponível, que me resolveu várias encrencas. Morava na Rua Conde de Almoster, em Benfica, numas casas da PSP que por lá havia.”
Os dois subchefes meteram-se num carro da PSP sem qualquer identificação e foram atrás dos dois misteriosos camiões. “Seguiram-nos de forma discreta até ao aeródromo militar de Figo Maduro”, contíguo ao aeroporto da Portela. “Os camiões entraram sem qualquer dificuldade, em direção a um avião da Aeroflot”, a companhia aérea da União Soviética, para cujo interior se fez a mudança dos caixotes.
 Caos 5. Na delegação do Porto, um grupo de civis (entre os quais jornalistas) consulta os muitos milhares de fichas feitas e guardadas pela PIDE/DGS
Aparício reconhece que cometeu “dois erros”. “Todos os aviões têm uma identificação, mas não tomámos nota da matrícula do aparelho. Não o pedi aos meus homens, e eles não o fizeram. Esse foi o primeiro erro. O segundo é que podia ter pedido, mais tarde, o plano de voo. Porque não há aparelho que saia de um aeródromo que não tenha de comunicar o plano de voo, onde está incluído o respetivo destino. Não me lembrei de o fazer, de maneira que fiquei sem saber para onde voou: se para Berlim, se para Moscovo, se para outra cidade qualquer.” Ser-lhe-ia muito fácil obter o plano de voo. “Na altura, era membro por inerência de uma comissão de segurança aeroportuária. Mas, como era da Aeroflot, imagino que tenha voado para Moscovo.”

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A nossa primeira "canadiana"

Puebla de Senabria (1977)
Era uma tarde como tantas outras, em casa junto à mesa redonda que se encontrava na sala de televisão das poucas reuniões familiares que tínhamos, devido não só aos horários dos pais como dos nossos, nesse dia foi-nos anunciado que iríamos inaugurar uma tenda que tinha acabado de ser desembrulhada vinda de Andorra.
Nada disto seria notícia, se não fosse o facto de a tenda ser bem pequena (canadiana) e nós sermos quatro, (16/15/14) e o Pai e ser no mês de Março/Abril de 77.
Hoje vamos todos à janela do RT-74-95 um Austin 1300 azul. Era sempre uma guerra nas viagens que nos separavam de Bragança a Montemor-o-Velho, que fazíamos duas a três vezes por ano.
(Hoje ao ouvir a noticia que o TGV iria chegar perto de Bragança) Puebla da Senabria veio-me à memória esse acampamento da estreia da nossa “canadiana”. Estávamos nas férias da Páscoa, altura ideal para acampar por estes lados. Frio, vento e chuva foi um teste e pêras, mas ficamos a saber que a “canadiana” não metia água.
Ao olhar para trás vejo-me eu e meus irmãos como galinhas na porta espreitando para o desconhecido, água e uma serra enorme à nossa frente. Perguntamos ao meu Pai se a água era quente do fumo que se via! A chuva não nos deixava sair por isso ficamos ali contemplando o horizonte até onde a vista nos deixava ver. E assim adormecemos e de manhã respondendo à pergunta do meu Pai; Voltamos? Em uníssono respondemos sim. Era este amor que ele tinha pela natureza, pelo campismo, as viagens, as conversas sempre no RT-74-95.


Próxima viagem – 70kg de ferro até Monte Gordo.

domingo, 27 de novembro de 2016

50 verdades sobre a ditadura de Fulgencio Batista em Cuba

Salim Lamrani | Paris - 16/10/201
Mitos alimentados pelos partidários do antigo regime exilados em Miami e detratores de Fidel Castro, ainda persistem.
A ditadura de Fulgencio Batista, de 1952 a 1958, precipitou o advento da Revolução Cubana. Alguns mitos, cuidadosamente alimentados pelos partidários do antigo regime exilados em Miami e pelos detratores de Fidel Castro, ainda persistem.

1. O golpe de Estado de 10 de março de 1952, organizado por Fulgencio Batista, que tinha sido presidente da República entre 1940 e 1944, colocou fim à ordem constitucional e derrubou o governo democraticamente eleito de Carlos Prío Socarrás, alguns meses antes das eleições presidenciais de junho de 1952.

2. Antigo sargento estenógrafo, Batista passou a fazer parte da política cubana durante a Revolução  de 4 de setembro de 1933, que foi liderada pelos estudantes e que derrubou a ditadura odiada de Gerardo Machado.
Ele encabeçou uma rebelião de suboficiais e se apoderou do Exército, transformando-se no novo chefe do Estado- Maior. No dia seguinte, 5 de setembro de 1933, Batista visitou o embaixador estadunidense Sumner Welles, que profetizou sua futura traição. Welles estava preocupado com os “elementos extremamente radicais” que acabavam de tomar o poder. O governo revolucionário de Ramón Grau San Martín, conhecido como “A Pentarquía”, tinha o apoio da “imensa maioria do povo cubano”, segundo a embaixada estadunidense.

3. Os Estados Unidos se negaram a reconhecer o novo governo revolucionário e encorajaram Batista a usar a força para derrubar San Martín. Este último defendia, por meio da voz de Antonio Guiteras, verdadeira alma da Revolução de 1933, a soberania nacional e a justiça social. Welles informou a Batista que dispunha do “apoio da imensa maioria dos interesses econômicos e financeiros em Cuba.”

4. Em janeiro de 1934, com o apoio de Washington, Batista derrubou o governo do Grau San Martín, conhecido como o governo dos “cem dias” (127 dias), impôs a figura de Carlos Mendieta e conservou o poder real. O sargento promovido a general tinha acabado de vencer as campanhas da Revolução de 1933. Washington alegrou-se com a situação: “O 4 de setembro de 1933 foi liquidado.”

5. Apesar das incessantes conspirações, da instabilidade política crônica e da hostilidade dos Estados Unidos, a [o governo da ] Revolução de 1933 organizou eleições para o dia 22 de abril de 1934; convocou uma Assembleia Constituinte para o dia 20 de maio de 1934; deu autonomia às universidades; reduziu o preço dos artigos de primeira necessidade; outorgou às mulheres o direito de votar; limitou a jornada de trabalho a oito horas; criou o Ministério do Trabalho; reduziu as tarifas de eletricidade e de gás; acabou com o monopólio das empresas estadunidenses; impôs uma moratória temporária sobre a dívida e, sobretudo, nacionalizou a Cuban Electric Company, filial da American Bond and Foreign Power Company.

6. De 1934 a 1940, Batista reinou nos bastidores até ser eleito presidente da República, em 1940, graças a uma coalizão heterogênea que agrupava as forças conservadoras e os comunistas do Partido Socialista Popular. Segundo Washington, “o volume e o tamanho da corrupção”, o alinhamento com a política exterior estadunidense e a sua dependência do mercado estadunidense marcaram seu governo. Batista permitiu, também, que Washington utilizasse o espaço aéreo, marítimo e terrestre [cubano], dispusesse de várias bases aéreas e navais [no país]  com uso exclusivo durante a Segunda Guerra Mundial, sem reciprocidade, pondo assim a soberania nacional entre parênteses.

7. Em 1944, Ramón Grau San Martín foi eleito presidente da República e tomou posse em outubro de 1944. Batista deixou uma situação financeira desastrosa para o seu sucessor. O embaixador estadunidense Spruille Braden se deu conta da situação já em julho de 1944 e informou seus superiores: “É cada vez mais evidente que o presidente Batista deseja dificultar a vida da próxima administração de todas as formas possíveis, e, particularmente, do ponto de vista financeiro”. Braden denunciou “um roubo sistemático dos fundos do Tesouro” e disse que “o Dr. Grau vai encontrar os caixas vazios quanto tome posse.”

8. Grau San Martín dirigiu o país até 1948 e a sua administração esteve gangrenada pela corrupção e pela dependência dos Estados Unidos. O Departamento de Estado enfatizou a débil situação da nação cubana em um memorando de 29 de julho de 1948: “A economia monocultora depende quase exclusivamente dos Estados Unidos. Se manipularmos os preços ou o contingente açucareiro podemos afundar toda a ilha na pobreza.”

9. Carlos Prío Socarrás, primeiro-ministro de Grau em 1945 e ministro do Trabalho depois, venceram a eleição presidencial de 1948. O nepotismo e a corrupção marcaram a sua administração.

10. No dia 10 de março de 1953, a três meses das eleições presidenciais de 1 de junho de 1952, Batista rompeu a ordem constitucional e instaurou uma ditadura militar. Aumentou o salário das forças armadas e da polícia (de 67 pesos para 100 pesos e de 91 pesos para 150 pesos, respectivamente); outorgou para si mesmo um salário anual maior que o do presidente dos Estados Unidos (passou de 26.400 dólares para 144 mil dólares, enquanto [Harry S.] Truman ganhava 100 mil); suspendeu o Congresso e entregou o poder legislativo ao Conselho de Ministros; eliminou o direito à greve; restabeleceu a pena de morte (proibida pela Constituição de 1940); e suspendeu as garantias constitucionais.

11. No dia 27 de março de 1952, os Estados Unidos reconheceram oficialmente o regime de Batista. Como apontou o embaixador estadunidense em Havana, “as declarações do general Batista a respeito do capital privado foram excelentes. Fora muito bem recebidas e, eu sabia, sem dúvida alguma, que o mundo dos negócios é dos mais entusiastas partidários do novo regime.”
12. Em julho de 1952, Washington assinou acordos militares com Havana, ainda que consciente do caráter brutal e arbitrário do novo poder. Cuba está “sob o jugo de um ditador sem piedade”, destacou a embaixada estadunidense em um relatório confidencial de janeiro de 1953, destinado ao Departamento do Estado.
De fato, o general reprimia com mão de ferro a oposição, particularmente a juventude estudantil simbolizada pelo assassinato do jovem Rubén Batista em janeiro de 1953.

13. No dia 26 de julho de 1953, um jovem advogado chamado Fidel Castro encabeçou uma expedição armada contra o quartel Moncada, segunda maior fortaleza militar do país. Foi um fracasso sangrento. O consulado estadunidense de Santiago de Cuba, disse que “o Exército não fez distinção entre os insurgentes capturados ou simples suspeitos”, reconhecendo o massacre cometido pelos soldados depois de receber ordens do coronel Alberto del Río Chaviano. Enfatizou também “o número muito baixo de feridos entre os insurgentes em relação ao número de soldados feridos [...]. Os agressores capturados foram executados a sangue frio e os agressores feridos também foram liquidados.”

14. Em novembro de 1954, Batista organizou uma paródia eleitoral que ganhou sem dificuldade. Os Estados Unidos reconheceram que “as eleições de Batista eram um simulacro destinado à agarrar-se ao poder.”

15. Em novembro de 1955, depois de uma ordem de Washington, o regime militar criou o Bureau de Repressão das Atividades Comunistas (BRAC), que se encarregava de “reprimir todas as atividades subversivas que pudessem afetar os Estados Unidos.”

16. Se os discursos de Batista eram ferozmente anticomunistas, é conveniente lembrar que foi ele quem estabeleceu pela primeira vez relações diplomáticas entre Cuba e a União Soviética, em 1942.

17. Durante toda a ditadura militar, Batista manteve relações comerciais com Moscou, vendendo açúcar. Em 1947, o Diario de la Marina, jornal conservador cubano, se alegrou com estas vendas destacando que “o preço do açúcar tinha melhorado depois de a União Soviética adquirir 200 mil toneladas”. Em nenhum momento Washington se preocupou com as relações comerciais entra a União Soviética e Cuba sob a ditadura de Batista. A história seria outra quando Fidel Castro chegasse ao poder.

18. Em maio de 1955, Batista, que desejava melhorar sua imagem e responder a uma petição popular, concedeu anistia geral e libertou Fidel Castro, assim como todos os outros presos de Moncada.

19.  No dia 2 de dezembro de 1956, depois de organizar uma expedição partindo do México, onde conheceu Che Guevara, Fidel Castro desembarcou em Cuba com 81 homens para dar início a uma guerra internacional contra a ditadura militar de Batista. Surpreendida pelo Exército, a operação foi um fracasso e os revolucionários tiveram de se separar. Fidel Castro se encontrou com outros 11 insurgentes, que tinham um total de apenas 7 fuzis.

20. O embaixador estadunidense Arthur Gardner expressou seu ponto de vista sobre Fidel Castro em um relatório enviado ao Departamento de Estado. O líder do Movimento 26 de Julho era um “gângster” que “ia se apoderar das indústrias americanas” e “nacionalizar tudo”. Quanto ao ditador Batista, “duvido que tenhamos tido melhor amigo que ele”. Faltava, então, “apoiar o atual governo e promover a expansão dos interesses econômicos estadunidenses.”

21. Batista exercia violência feroz contra a oposição. Mas os Estados Unidos se mostraram discretos em relação aos crimes que o seu aliado cubano cometia. Entretanto, a embaixada estadunidense em Havana multiplicava os relatórios sobre o tema: “Estamos convencidos agora de que os assassinatos recorrentes de pessoas a quem o governo qualifica como opositores e terroristas são, na realidade, o trabalho da polícia e do Exército. No entanto, o adido jurídico recebeu confissões indiretas da culpa dos círculos policiais, além de provas da responsabilidade da polícia.”

22. Wayne S. Smith, jovem funcionário da embaixada estadunidense, ficou chocado com os massacres cometidos pelas forças da ordem. Descreveu cenas de terror: “A polícia reagia de maneira excessiva à prisão dos insurgentes, torturando e matando centenas de pessoas, tanto inocentes como culpados. Os corpos são abandonados, enforcados em árvores, nas rodovias. Tais táticas levaram a opinião pública a rejeitar Batista e apoiar a oposição.”

23. Em fevereiro de 1957, a entrevista com Fidel Castro realizada por Herbert Matthews, do The New York Times, permitiu que a opinião pública estadunidense e mundial descobrisse a existência de uma guerrilha em Cuba. Batista confessaria mais tarde em suas memórias que graças a esse palco jornalístico “Castro começava a ser um personagem de lenda”. Matthews relativizou, no entanto, a importância de sua entrevista: “Nenhuma publicidade, por mais sensacional que fosse, teria podido ter efeito se Fidel Castro não fosse precisamente o homem que eu descrevi.”

24. No dia 13 de março de 1957, um comando do Diretório Revolucionário do líder estudantil José Antonio Echeverría, que era composto de 64 jovens, atacou o Palácio Presidencial com o objetivo de executar Batista. A operação foi um fracasso e custou a vida de 40 dos 64 estudantes. Os sobreviventes foram perseguidos pela cidade e assassinados. Echeverría perdeu a vida durante um enfrentamento com a polícia perto da Universidade de Havana.

25. A embaixada francesa em Havana analisou o ataque de 13 de março: “As reações americanas aos acontecimentos em Cuba eram de horror, de simpatia pelos insurgentes, de reprovação contra Batista. Ao ler as reportagens que os principais jornais cubanos dedicaram ao evento, fica claro que o heroísmo dos patriotas cubanos marcou muito os Estados Unidos [...]. Se alguns reconhecem, no entanto, que os insurgentes de 13 de março estavam errados em seus métodos, é verdade, muito mais que em seus objetivos, todos estimam em troca que deram à sua causa a palma do martírio e que este exemplo estimularia a oposição cubana.”

26. Fidel Castro, que fez uma aliança com o Diretório Revolucionário na luta contra Batista, não concordava com o assassinato político: “Estávamos contra Batista, mas nunca tentamos organizar um atentado contra ele e teríamos podido fazê-lo. Era vulnerável. Era muito mais difícil lutar contra o Exército dele nas montanhas ou tentar tomar uma fortaleza que era protegida por um regimento. Quantos estavam no quartel de Moncada, naquele 26 de julho de 1953? Cerca de mil homens, talvez mais. Preparar um ataque contra Batista e eliminá-lo era dez ou vinte vezes mais fácil, mas nunca o fizemos. Por acaso o tiranicídio serviu alguma vez na história para fazer uma revolução? Nada muda nas condições objetivas que geram uma tirania [...]. Nunca acreditamos no assassinato de líderes [...], não acreditávamos que se abolia ou eliminava um sistema quando se eliminava seus líderes. Combatíamos as ideias reacionárias, não os homens.”

27. Nas montanhas de Sierra Maestra, onde aconteciam os combates entre o Exército e os insurgentes, Batista evacuou à força as famílias camponesas para eliminar a base de apoio dos rebeldes e as concentrou em armazéns da cidade de Santiago. Aplicava, assim, os métodos do general espanhol Valeriano Weyler durante a guerra de 1895-1898. Em uma reportagem, a revista Bohemia denunciou uma “situação de tragédia” que lembrava “as épocas mais obscuras de Cuba”. A revista semanal relatou a sorte de cerca de 6 mil vítimas: “É uma história dolorosa, de sofrimentos, de penas intensas. É a história de 6 mil cubanos obrigados a deixarem seus lares, ali, nos rincões inextricáveis de Sierra Maestra, para serem concentrados em lugares onde lhes faltava tudo, onde era difícil ajudá-los, dar-lhes uma cama ou um prato de comida.”

28. No dia 29 de julho de 1957, o assassinato de Frank País, líder do Movimento 26 de Julho no estado de Oriente, desatou uma imensa manifestação que foi reprimida pelas forças de Batista, a ponto de o embaixador estadunidense Earl E. T. Smith se sentir obrigado a denunciar “a ação excessiva da polícia.”

29. No dia 5 de setembro de 1957, o levante de uma parte do Exército contra Batista [na cidade de] Cienfuegos foi afogado em sangue. Segundo o embaixador Smith, “o fator-chave para quebrar a revolta de Cienfuegos” foi o uso de aviões “F-47 e B-26”, fornecidos pelos Estados Unidos.

30. No dia 29 de setembro de 1957, o Colégio Médico Cubano publicou um relatório sobre a situação política cubana durante a XI Assembleia Geral da Associação Médica Mundial. Segundo ele, “os combatentes da luta arma que se rendem são liquidados. Não há prisioneiros, só há mortos. Muitos opositores não são submetidos ao Tribunal de Justiça, são executados com um tiro na nuca ou enforcados. Intimidam os magistrados e os juízes sem que as vozes de protestos sejam escutadas. A desesperança se difunde entre os jovens que se sacrificam em uma luta desigual. Aquele que é perseguido não encontra refúgio. Na embaixada do Haiti, dez solicitantes de asilo foram assassinados pela força pública [...]. A imprensa está totalmente censurada. Não se permite a informação jornalística, nem sequer por parte das agências internacionais [...]. Nos locais do Exército e dos corpos de repressão da polícia os detidos são torturados para arrancar deles à força a confissão de supostos delitos. Vários feridos que estavam em clínicas e hospitais foram levados à força e apareceram várias horas depois assassinados nas cidades ou no campo”. O Washington Post e o Times Herald destacaram que “os médicos cubanos são vítimas de atrocidades, inclusive de assassinato por curar rebeldes cubanos.”

31. Em 1958, além de apoiar o regime de Batista, os Estados Unidos julgaram e prenderam Carlos Prío Socarrás, presidente legítimo de Cuba, refugiado em Miami, sob o pretexto de violar as leis de neutralidade do país, Ele tentava organizar uma resistência interna contra a ditadura.

32. Quanto à liberdade de imprensa, os Estados Unidos apresentaram  a Cuba pré-revolucionária com uma visão positiva. Assim, afirmam, “antes de 1959, o debate público era vigoroso: havia 58 jornais e 28 canais de televisão que proporcionavam uma pluralidade de pontos de vista políticos”. Os documentos da época e os acontecimentos contradizem esta afirmação. De fato, um relatório da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, por sua sigla em espanhol), publicado em 1957, chamou de “antidemocrático o governo do presidente Fulgencio Batista de Cuba, já que o governo não respeita a liberdade de imprensa”. De fato, a censura à imprensa se aplicou durante 630 dias dos 759 que durou a guerra insurrecional, entre 2 de dezembro de 1956 e 1 de janeiro de 1959.

33. Sob o mando de Batista, a corrupção era endêmica. “Os diplomatas informam inclusive que se sempre houve corrupção governamental em Cuba, nunca foi tão eficaz e generalizada como durante o regime do presidente Fulgencio Batista”, afirmou o The New York Times.

34. Batista estava intimamente vinculado a criminosos como Meyer Lansky ou Luigi Trafficante Jr. Seus primeiros contatos com a máfia remontavam à 1933, quando ele se autoproclamou coronel e Charles “Lucky” Luciano e Santo Trafficante sênior se aproximaram dele. O mundo do jogo, altamente lucrativo, estava controlado por Lansky, número dois da máfia estadunidense, um dos principais gângsteres dos Estados Unidos”, que “tinha criado para o ditador Batista a organização atual dos jogos de Havana”, de acordo com o jornal francês Le Monde.

35.  Os Estados Unidos e os partidários do antigo regime apresentam ainda a Cuba de Batista como “a vitrina da América Latina” da época. A realidade é sensivelmente diferente. As estatísticas do Banco Nacional de Cuba estão disponíveis para esse período e é possível comparar a situação econômica sob o governo democrático do presidente Carlos Prío Socarrás e sob o regime militar de Batista. Assim, entre 1951 e 1952, o PIB cubano aumentou 2,52%. De 1952 a 1953, sob Batista, o PIB caiu 11,41%, com um aumento de apenas 0,9%, de 1953 a 1954, e de 3,5%, de 1954 a 1955. Apenas em 1956 o PIB voltou a alcançar o nível de 1952, com 2,4  bilhões de pesos. Assim, é impossível falar de crescimento econômico entre 1952 a 1956. Durante dois terços do reinado de Batista não houve crescimento. A melhor só aconteceu a partir de 1957, quando o PIB alcançou a cifra de 2,8  bilhões de pesos e, em 1958, voltou a baixar para 2,6  bilhões.

36. Além disso, as reservas monetárias caíram de 448 milhões de pesos, em 1952, para 373 milhões em 1958, os quais foram roubados durante a fuga de Batista e de seus cúmplices no dia 1 de janeiro de 1959. A dívida da nação passou de 300 milhões de dólares, em março de 1952, para 1,3 bilhão em janeiro de 1959, e o déficit orçamentário alcançou os 800 milhões de dólares.

37. A política açucareira de Batista foi um fracasso. Enquanto esse setor gerava entradas na casa dos 623 milhões de pesos em 1952, o montante baixou para 383, 5 milhões em 1953, 412,8 milhões em 1954, 402,1 milhões em 1955, 426,1 milhões em 1956 e 520,7 milhões em 1958. Somente o ano de 1957 gerou mais ingressou que 1952, com 630,8 milhões de pesos.

38. Os trabalhadores e empregados agrícolas pagaram o preço. Enquanto sua remuneração subia para 224.99 milhões de pesos em 1952, caiu para 127,7 milhões em 1953, 128,2 milhões em 1954, 118,9 milhões em 1955, 127 milhões em 1956, 175,3 milhões em 1957, 123,5 milhões em 1955, 114,6 milhões em 1956, 145,7 milhões em 1957 e 141,8 milhões em 1958. No governo de Batista, os trabalhadores e empregados não agrícolas nunca chegaram ao nível de renda de 1952.

39.  Mesmo assim, o regime de Batista se beneficiou da ajuda econômica estadunidense como nunca. Os investimentos estadunidenses em Cuba passaram de 657 milhões de dólares em 1950, no governo de Carlos Prío Socarrás, para mais de 1 bilhão de dólares em 1958.

40. O professor estadunidense Louis A. Pérez Jr. aponta que, “na realidade, a renda per capita em Cuba, em 1958, era mais ou menos semelhante a de 1947.”

41. Um estudo realizado pelo Conselho Nacional de Economia dos Estados Unidos, entre maio e 1956 e junho de 1957, publicado em um relatório intitulado Investment in Cuba. Basic Information for the United States Busing Department of Commerce, o número de desempregados era 650 mil na metade do ano, isto é, cerca de 35% da população ativa. Destes, 450 mil eram desempregados permanentes. Entre os 1,4 milhão de trabalhadores, cerca de 62% recebia um salário inferior a 75 pesos mensais. De acordo com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, “no campo, o número de desocupados aumentava a cada safra açucareira e podia superar os 20% da mão-de-obra, isto é, entre 400 e 500 mil pessoas”. A renda anual do jornaleiro não passava dos 300 dólares.

42. Cerca de 60% dos camponeses viviam em barracos com teto de palha e piso de terra, desprovidos de banheiros ou água corrente. Cerca de 90% não tinham eletricidade. Cerca de 85% destes barracos tinham um ou dois ambientes para toda a família. Somente 11% dos camponeses consumiam leite, 4% carne, 2% ovos. 43% eram analfabetos e 44% nunca tinham ido para a escola. O jornal The New York Times ressalta que “a grande maioria deles nas zonas rurais – guajiros ou camponeses – vivem na miséria, em nível de subsistência.”

43. Segundo o economista inglês Dudley Seers, a situação em 1958 era “intolerável. O que era intolerável era a taxa de desemprego três vezes mais elevada que nos Estados Unidos. Por outro lado, no campo, as condições sociais eram malíssimas. Cerca de um terço da nação vivia na sujeira, comendo arroz feijão, banana e salada (quase nunca carne, peixe, ovos ou leite), vivendo em barracos, normalmente sem eletricidade nem latrinas, vítimas de doenças parasitárias, e não se beneficiavam de um serviço de saúde. A situação dos pobres, instalados em barracos provisórios em terras coletivas, era particularmente difícil [...]. Uma importante proporção da população urbana também era muito miserável”.

44. O presidente John f. Kennedy também se expressou a respeito: “Penso que não existe um país no mundo, incluindo os países sob domínio colonial, onde a colonização econômica, a humilhação e a exploração foram piores que as que aconteceram em Cuba, devido à política do meu país, durante o regime de Batista. Nos negamos a ajudar Cuba em sua desesperada necessidade de progresso econômico. Em 1953, a família cubana média tinha uma renda de 6 dólares semanais [...]. Este nível abismal piorou à medida que a população crescia. Mas, em vez de estender uma mão amistosa ao povo desesperado de Cuba, quase toda a nossa ajuda tomava forma de assistência militar – assistência que simplesmente reforçou a ditadura de Batista [gerando] o sentimento crescente de que os Estados Unidos eram indiferentes às aspirações cubanas a uma vida decente.”

45. Arthur M. Schlesinger, Jr., assessor pessoal do presidente Kennedy, se lembrou de uma estadia na capital cubana e testemunhou: “Eu adorava Havana e me horrorizou a maneira como esta adorável cidade tinha se transformado desgraçadamente em um grande cassino e prostíbulo para os homens de negócios norte-americanos [...]. Meus compatriotas caminhavam pelas ruas, se deitavam com garotas cubanas de 14 anos e jogavam fora moedas só pelo prazer de ver os homens chafurdando no esgoto para recolhê-las. É de se questionar como os cubanos – vendo essa realidade – poderiam ver os Estados Unidos de outro modo a não ser com ódio.”

46. Contrariamente às práticas do Exército governamental, os revolucionários davam uma grande importância ao respeito da vida dos prisioneiros. A respeito, Fidel Castro conta: “Na nossa guerra de liberação nacional, não houve um único caso sequer de prisioneiro torturado, nem mesmo quando poderíamos ter usado como pretexto a necessidade de conseguir alguma informação militar para salvar a nossa própria tropa ou para ganhar uma batalha. Não houve um só caso. Tivemos centenas de prisioneiros, depois milhares, antes do fim da guerra; era possível procurar os nomes de todos e não houve um único caso entre essas centenas, estes milhares de prisioneiros que tenha sofrido uma humilhação, ou sequer um insulto. Quase sempre púnhamos estes prisioneiros em liberdade. Isso nos ajudou a ganhar a guerra, porque nos deu um grau de autoridade frente aos soldados do inimigo. Confiavam em nós. No começo, ninguém se rendia; no final, se rendiam em massa”. O New York Times também aludiu ao bom tratamento reservado aos soldados presos: “É o tipo de conduta que ajudou ao Sr. Castro a ter uma importância tão extraordinária no coração e no espírito dos cubanos.”

47.  O embaixador Smith resumiu as razões do apoio dos Estados Unidos a Batista: “O governo de Batista é ditatorial e pensamos que não tem o apoio da maioria do povo de Cuba. Mas o governo de Cuba tem sido um governo amistoso em relação aos Estados Unidos e tem seguido uma política econômica em geral sã, que tem beneficiado os investidores estadunidenses. Tem sido um partidário leal das políticas dos Estados Unidos nos foros internacionais.”

48. O jornalista estadunidense Jules Dubois, um dos maiores especialistas da realidade cubana da época, descreveu com Herbert L. Matthews o regime de Batista: “Batista voltou ao poder no dia 10 de março de 1952 e começou então a etapa mais sangrenta da história cubana desde a guerra da independência, quase um século antes. As represálias das forças repressivas de Batista custaram a vida a numerosos presos políticos. Para cada bomba que explodia, tiravam dois presos da cela e os executavam de maneira sumária. Uma noite em Marianao , um bairro de Havana, os corpos de 98 presos foram espalhados pelas ruas, crivados de balas.”

49. O presidente Kennedy também denunciou a brutalidade do regime: “Há dois anos, em setembro de 1958, um grupo de rebeldes barbudos desceu das montanhas de Sierra Maestra, em Cuba, e começou sua marcha até Havana, uma marcha que finalmente derrubou a ditadura brutal, sangrenta e despótica de Fulgencio Batista [...]. Nosso fracasso mais desastroso foi a decisão de dar status e apoio a uma das mais sangrentas e repressivas ditaturas na longa história da repressão latino-americana. Fulgencio Batista assassinou 20 mil cubanos em 7 anos – uma proporção maior da população cubana que a proporção de norte-americanos que morreram nas duas guerras mundiais – e transformou a democrática Cuba em uma Estado policial total, destruindo cada liberdade individual.”

50. Apesar das declarações oficiais de neutralidade no conflito cubano, os Estados Unidos deram seu apoio político, econômico e militar a Batista e se opuseram a Fidel Castro. Apesar disso, de seus 20 mil soldados e de sua superioridade material, Batista não pôde vencer uma guerrilha composta de 300 homens armados durante a ofensiva final do verão de 1958. A contraofensiva estratégica lançada por Fidel Castro causou a fuga de Batista para a República Dominicana e o triunfo da Revolução em 1 de janeiro de 1959.

* Salim Lamrani é Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, Salim Lamrani é professor-titular da Universidade de La Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba. Les médias face au défi de l’impartialité, Paris, Editions Estrella, 2013, com prólo

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