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domingo, 20 de outubro de 2013

Carta aos 19%


CARTA AOS 19% (Ricardo Araújo                                 Pereira) Caro desempregado, Em nome de                                 Portugal, gostaria de agradecer o teu                                 contributo para o sucesso económico do                                 nosso país. Portugal tem tido um                                 desempenho exemplar, e o ajustamento                                 está a ser muito bem-sucedido, o que não                                 seria possível sem a tua presença                                 permanente na fila para o centro de                                 emprego. Está a ser feito um enorme                                   esforço para que Portugal recupere a                                 confiança dos mercados e, pelos vistos,                                 os mercados só confiam em Portugal se tu                                 não puderes trabalhar. O teu desemprego,                                 embora possa ser ligeiramente                                 desagradável para ti, é medicinal para a                                 nossa economia. Os investidores não                                 apostam no nosso país se souberem que tu                                 arranjaste emprego. Preferem emprestar                                 dinheiro a pessoas desempregadas.                                 Antigamente, estávamos todos a viver                                 acima das nossas possibilidades. Agora                                 estamos só a viver, o que aparentemente                                   continua a estar acima das nossas                                 possibilidades. Começamos a perceber que                                 as nossas necessidades estão acima das                                 nossas possibilidades. A tua necessidade                                 de arranjar um emprego está muito acima                                 das tuas possibilidades. É possível que                                 a tua necessidade de comer também                                 esteja. Tens de pagar impostos acima das                                 tuas possibilidades para poderes viver                                 abaixo das tuas necessidades. Viver mal                                 é caríssimo. Não estás sozinho. O                                 governo prepara-se para propor rescisões                                 amigáveis a milhares de funcionários                                   públicos. Vais ter companhia. Segundo o                                 primeiro-ministro, as rescisões não são                                 despedimentos, são janelas de                                 oportunidade. O melhor é agasalhares-te                                 bem, porque o governo tem aberto tantas                                 janelas de oportunidade que se torna                                 difícil evitar as correntes de ar de                                 oportunidade. Há quem sinta a tentação                                 de se abeirar de uma destas janelas de                                 oportunidade e de se atirar cá para                                 baixo. É mal pensado. Temos uma dívida                                 enorme para pagar, e a melhor maneira de                                 conseguir pagá-la é impedir que   um                                 quinto dos trabalhadores possa produzir.                                 Aceita a tua função neste processo e não                                 esperneies. Tem calma. E não te                                 preocupes. O teu desemprego está dentro                                 das previsões do governo. Que diabo,                                 isso tem de te tranquilizar de algum                                 modo. Felizmente, a tua miséria não                                 apanhou ninguém de surpresa, o que é                                 excelente. A miséria previsível é a                                 preferida de toda a gente. Repara como o                                 governo te preparou para a crise. Se                                 acontecer a Portugal o mesmo que ao                                 Chipre, é deixá-los ir à tua   conta                                 bancária confiscar uma parcela dos teus                                 depósitos. Já não tens lá nada para ser                                 confiscado. Podes ficar tranquilo. E não                                 tens nada que agradecer

CARTA AOS 19% 
(Ricardo Araújo Pereira) 

Caro desempregado, 
Em nome de Portugal, gostaria de agradecer o teu contributo para o sucesso económico do nosso país. Portugal tem tido um desempenho exemplar, e o ajustamento está a ser muito bem-sucedido, o que não seria possível sem a tua presença permanente na fila para o centro de emprego. Está a ser feito um enorme esforço para que Portugal recupere a confiança dos mercados e, pelos vistos, os mercados só confiam em Portugal se tu não puderes trabalhar. O teu desemprego, embora possa ser ligeiramente desagradável para ti, é medicinal para a nossa economia. Os investidores não apostam no nosso país se souberem que tu arranjaste emprego. Preferem emprestar dinheiro a pessoas desempregadas. 

Antigamente, estávamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a estar acima das nossas possibilidades. Começamos a perceber que as nossas necessidades estão acima das nossas possibilidades. A tua necessidade de arranjar um emprego está muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer também esteja. Tens de pagar impostos acima das tuas possibilidades para poderes viver abaixo das tuas necessidades. Viver mal é caríssimo. 

Não estás sozinho. O governo prepara-se para propor rescisões amigáveis a milhares de funcionários públicos. Vais ter companhia. Segundo o primeiro-ministro, as rescisões não são despedimentos, são janelas de oportunidade. O melhor é agasalhares-te bem, porque o governo tem aberto tantas janelas de oportunidade que se torna difícil evitar as correntes de ar de oportunidade. Há quem sinta a tentação de se abeirar de uma destas janelas de oportunidade e de se atirar cá para baixo. É mal pensado. Temos uma dívida enorme para pagar, e a melhor maneira de conseguir pagá-la é impedir que um quinto dos trabalhadores possa produzir. Aceita a tua função neste processo e não esperneies. 

Tem calma. E não te preocupes. O teu desemprego está dentro das previsões do governo. Que diabo, isso tem de te tranquilizar de algum modo. Felizmente, a tua miséria não apanhou ninguém de surpresa, o que é excelente. A miséria previsível é a preferida de toda a gente. Repara como o governo te preparou para a crise. Se acontecer a Portugal o mesmo que ao Chipre, é deixá-los ir à tua conta bancária confiscar uma parcela dos teus depósitos. Já não tens lá nada para ser confiscado. Podes ficar tranquilo. E não tens nada que agradecer.

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