José de Almada Negreiros
(07-04-1893 , São Tomé - 15-06-1970 , Lisboa )
Biografia
Procurando, entre os movimentos de vanguarda europeus, o rumo da sua
individualidade artística e literária, digna da «pátria portuguesa do
século XX» (tal como a descreve no Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, 1917), Almada escreve A Cena do Ódio (1915), o Manifesto Anti-Dantas e Litoral (ambos de 1916), A Engomadeira e K4 O Quadrado Azul
(publicados em 1917). Realiza a sua segunda exposição individual na
Galeria das Artes de José Pacheco, em Setembro de 1916, longe já do
humorismo dos Salões. O rótulo futurista que, em 1917 - ano da 1.ª Conferência Futurista e de Portugal Futurista -, assume com Santa Rita Pintor, é adoptado provocatoriamente como estandarte da modernidade e da luta contra o passadismo.
As representações lisboetas dos Ballets Russes,
em 1917 e 1918, marcam-no profundamente, animando sob a sua influência
uma série de bailados representados por amadores e por crianças, em
particular pelas jovens Lalá, Tareca, Zeca e Tatão (que formam, com
Almada, o «Club das Cinco Cores»). A poética da ingenuidade almadiana,
intimamente relacionada com este grupo, será desenvolvida em Paris,
cidade onde vive relativamente isolado entre 1919 e 1920, prosseguindo a
sua aprendizagem fora das academias livres e dos ateliers e contactando
apenas de passagem com os artistas de vanguarda.
De
regresso a Lisboa, realiza a sua terceira exposição individual no Teatro
de S. Carlos, apresentando desenhos feitos em Paris. Anuncia, no âmbito
desta exposição, A Invenção Do Dia Claro (publicado em 1921), manifesto poético da ingenuidade.
Durante os anos vinte publica Pierrot e Arlequim (1924) e começa a escrever Nome de Guerra (1925); colabora nas revistas Contemporânea, Athena, e Presença, no Diário de Lisboa, e no Sempre Fixe; participa na Exposição dos Cinco Independentes (1923), e nos I e II Salões de Outono (1925 e 1926); pinta Auto-Retrato Num Grupo e Banhistas, para a Brasileira do Chiado (1925), e um Nu Feminino,
para o Bristol Club (1926); integra o grupo de artistas «novos» que
José Pacheco tenta, em vão, fazer entrar na Sociedade Nacional de Belas
Artes; e constata que «é viver o que é impossível em Portugal» (Modernismo, 1926).
Parte,
então, para Madrid (1927-1932), onde participa activamente na cena
artística e literária, convivendo e colaborando com os artistas,
arquitectos e escritores mais representativos da modernidade espanhola.
De regresso a Lisboa, realiza a conferência Direcção Única,
defendendo a unidade entre indivíduo e colectividade, «esses dois
valores iguais, recíprocos, que dependem um do outro e que isoladamente
se suicidam por suas próprias mãos». Relação difícil mas que Almada vê
esperançado, em Março de 1935, no âmbito da I Exposição Oficial de Arte
Moderna, uma iniciativa de António Ferro, figura próxima da geração de Orpheu
e director do recém-criado SPN: «Ser artista é um resultado directo da
humanidade e da sociedade; é um lugar legítimo de determinadas
individualidades», «aos poderes públicos compete-lhes tão-somente não
ignorar e reconhecer os determinados valores que a humanidade e a
sociedade lhes indicam», «é com grande respeito que vejo, pela primeira
vez na minha terra, os poderes públicos ao lado da arte mais nova de
Portugal».
Com uma «personalidade» artística já definida e
alguma estabilidade emocional (graças ao casamento com a pintora Sarah
Affonso em Março de 1934) e financeira (devido às encomendas públicas
que começa a receber), Almada prossegue sozinho o caminho aberto com os
seus antigos camaradas, rumo à consagração. Como escritor, com a
publicação de Nome de Guerra, em 1938, que inaugura a Colecção
de «Autores Modernos Portugueses» (dirigida por João Gaspar Simões,
Edições Europa). Como pintor, premiado em 1942 (Prémio Columbano), em
1946 (Prémio Domingos Sequeira), em 1957 (Fundação Calouste Gulbenkian),
e em 1966 (Prémio Diário de Notícias), e autor das decorações a fresco
para as Gares Marítimas de Alcântara (1943-1945) e da Rocha do Conde de
Óbidos (1946-1949), e dos Retratos de Fernando Pessoa para o
Restaurante Irmãos Unidos (1954) e para a Fundação Calouste Gulbenkian
(1964). Enquanto teórico de arte, com os ensaios Ver (1943), Mito – Alegoria – Símbolo (1948), e A Chave Diz: Faltam Duas Tábuas e Meia no Todo da Obra de Nuno Gonçalves
(1950), textos que teorizam a incessante busca do cânone, fundamento da
criação universal, que explora na série de quatro óleos
abstracto-geométricos apresentados na I Exposição de Artes Plásticas da
Fundação Calouste Gulbenkian (1957), e sintetiza no painel Começar (1968-1969), realizado para a entrada da mesma Fundação.
Passaram-se
ontem 120 anos sobre o nascimento de Almada Negreiros (7.04.1893-15.06.1970),
um dos pilares da arte portuguesa do século XX. Artista eclético,
multifacetado, com incursões na dança e no cinema, deixou uma obra que é das
mais coerentes e, simultaneamente, mais transversais da sua época. Viveu em Paris
e Madrid, onde contactou com os principais intervenientes nos movimentos de
vanguarda europeus. Foi em 1913, nos salões da Escola Internacional de Lisboa,
que o mundo viu nascer o artista Almada Negreiros, figura ímpar da vanguarda
portuguesa. Nenhum outro do seu tempo, na verdade de qualquer tempo, foi tão
prolífico na exploração dos vários níveis de expressão artística e no
virtuosismo com que neles se exprimiu. A obra de Almada Negreiros inclui um
conjunto múltiplo de trabalhos plásticos e literários, marcados pelo estilo de
alguém que cultivou, em múltiplas direcções, a mais vibrante das formas de
comunicação. Com início em Abril e até Novembro do corrente ano, um extenso
programa, desenvolvido com a colaboração de várias entidades e instituições, assinala
esta efeméride. Tertúlias, documentários, exposições, colóquios, espectáculos,
edições sobre o artista e reedições da sua obra são algumas das iniciativas que
vão permitir um novo olhar sobre o seu património artístico.
"Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa originalidade; pela sua ação pessoal através de artigos e conferências - Almada-Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós". Assim apresenta Jorge de Sena, no primeiro volume das Líricas Portuguesas, o homem que, com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mais marcou plástica e literariamente a evolução da cultura contemporânea portuguesa
Graças ao editor Fernando Pessoa, renasceu um texto fundamental de Almada Negreiros
- Algumas das muitas obras
1930
1925
1922
1920
1922
1922
1926











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