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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Almada Negreiros nasceu à 120 anos



José de Almada Negreiros

(07-04-1893 , São Tomé - 15-06-1970 , Lisboa )


José de Almada Negreiros

Biografia
Procurando, entre os movimentos de vanguarda europeus, o rumo da sua individualidade artística e literária, digna da «pátria portuguesa do século XX» (tal como a descreve no Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, 1917), Almada escreve A Cena do Ódio (1915), o Manifesto Anti-Dantas e Litoral (ambos de 1916), A Engomadeira e K4 O Quadrado Azul (publicados em 1917). Realiza a sua segunda exposição individual na Galeria das Artes de José Pacheco, em Setembro de 1916, longe já do humorismo dos Salões. O rótulo futurista que, em 1917 - ano da 1.ª Conferência Futurista e de Portugal Futurista -, assume com Santa Rita Pintor, é adoptado provocatoriamente como estandarte da modernidade e da luta contra o passadismo.

As representações lisboetas dos Ballets Russes, em 1917 e 1918, marcam-no profundamente, animando sob a sua influência uma série de bailados representados por amadores e por crianças, em particular pelas jovens Lalá, Tareca, Zeca e Tatão (que formam, com Almada, o «Club das Cinco Cores»). A poética da ingenuidade almadiana, intimamente relacionada com este grupo, será desenvolvida em Paris, cidade onde vive relativamente isolado entre 1919 e 1920, prosseguindo a sua aprendizagem fora das academias livres e dos ateliers e contactando apenas de passagem com os artistas de vanguarda.

De regresso a Lisboa, realiza a sua terceira exposição individual no Teatro de S. Carlos, apresentando desenhos feitos em Paris. Anuncia, no âmbito desta exposição, A Invenção Do Dia Claro (publicado em 1921), manifesto poético da ingenuidade.

Durante os anos vinte publica Pierrot e Arlequim (1924) e começa a escrever Nome de Guerra (1925); colabora nas revistas Contemporânea, Athena, e Presença, no Diário de Lisboa, e no Sempre Fixe; participa na Exposição dos Cinco Independentes (1923), e nos I e II Salões de Outono (1925 e 1926); pinta Auto-Retrato Num Grupo e Banhistas, para a Brasileira do Chiado (1925), e um Nu Feminino, para o Bristol Club (1926); integra o grupo de artistas «novos» que José Pacheco tenta, em vão, fazer entrar na Sociedade Nacional de Belas Artes; e constata que «é viver o que é impossível em Portugal» (Modernismo, 1926).

Parte, então, para Madrid (1927-1932), onde participa activamente na cena artística e literária, convivendo e colaborando com os artistas, arquitectos e escritores mais representativos da modernidade espanhola. De regresso a Lisboa, realiza a conferência Direcção Única, defendendo a unidade entre indivíduo e colectividade, «esses dois valores iguais, recíprocos, que dependem um do outro e que isoladamente se suicidam por suas próprias mãos». Relação difícil mas que Almada vê esperançado, em Março de 1935, no âmbito da I Exposição Oficial de Arte Moderna, uma iniciativa de António Ferro, figura próxima da geração de Orpheu e director do recém-criado SPN: «Ser artista é um resultado directo da humanidade e da sociedade; é um lugar legítimo de determinadas individualidades», «aos poderes públicos compete-lhes tão-somente não ignorar e reconhecer os determinados valores que a humanidade e a sociedade lhes indicam», «é com grande respeito que vejo, pela primeira vez na minha terra, os poderes públicos ao lado da arte mais nova de Portugal».

Com uma «personalidade» artística já definida e alguma estabilidade emocional (graças ao casamento com a pintora Sarah Affonso em Março de 1934) e financeira (devido às encomendas públicas que começa a receber), Almada prossegue sozinho o caminho aberto com os seus antigos camaradas, rumo à consagração. Como escritor, com a publicação de Nome de Guerra, em 1938, que inaugura a Colecção de «Autores Modernos Portugueses» (dirigida por João Gaspar Simões, Edições Europa). Como pintor, premiado em 1942 (Prémio Columbano), em 1946 (Prémio Domingos Sequeira), em 1957 (Fundação Calouste Gulbenkian), e em 1966 (Prémio Diário de Notícias), e autor das decorações a fresco para as Gares Marítimas de Alcântara (1943-1945) e da Rocha do Conde de Óbidos (1946-1949), e dos Retratos de Fernando Pessoa para o Restaurante Irmãos Unidos (1954) e para a Fundação Calouste Gulbenkian (1964). Enquanto teórico de arte, com os ensaios Ver (1943), Mito – Alegoria – Símbolo (1948), e A Chave Diz: Faltam Duas Tábuas e Meia no Todo da Obra de Nuno Gonçalves (1950), textos que teorizam a incessante busca do cânone, fundamento da criação universal, que explora na série de quatro óleos abstracto-geométricos apresentados na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957), e sintetiza no painel Começar (1968-1969), realizado para a entrada da mesma Fundação.



Passaram-se ontem 120 anos sobre o nascimento de Almada Negreiros (7.04.1893-15.06.1970), um dos pilares da arte portuguesa do século XX. Artista eclético, multifacetado, com incursões na dança e no cinema, deixou uma obra que é das mais coerentes e, simultaneamente, mais transversais da sua época. Viveu em Paris e Madrid, onde contactou com os principais intervenientes nos movimentos de vanguarda europeus. Foi em 1913, nos salões da Escola Internacional de Lisboa, que o mundo viu nascer o artista Almada Negreiros, figura ímpar da vanguarda portuguesa. Nenhum outro do seu tempo, na verdade de qualquer tempo, foi tão prolífico na exploração dos vários níveis de expressão artística e no virtuosismo com que neles se exprimiu. A obra de Almada Negreiros inclui um conjunto múltiplo de trabalhos plásticos e literários, marcados pelo estilo de alguém que cultivou, em múltiplas direcções, a mais vibrante das formas de comunicação. Com início em Abril e até Novembro do corrente ano, um extenso programa, desenvolvido com a colaboração de várias entidades e instituições, assinala esta efeméride. Tertúlias, documentários, exposições, colóquios, espectáculos, edições sobre o artista e reedições da sua obra são algumas das iniciativas que vão permitir um novo olhar sobre o seu património artístico.

"Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa originalidade; pela sua ação pessoal através de artigos e conferências - Almada-Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós". Assim apresenta Jorge de Sena, no primeiro volume das Líricas Portuguesas, o homem que, com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mais marcou plástica e literariamente a evolução da cultura contemporânea portuguesa
Graças ao editor Fernando Pessoa, renasceu um texto fundamental de Almada Negreiros

Já em 1916, o poeta-pintor Almada Negreiros escrevia que as suas obras «devem ser lidas pelo menos duas vezes prós muito inteligentes e d'aqui pra baixo é sempre a dobrar». A nota adapta-se bem a Invenção do Dia Claro, de 1921, brilhante poema em prosa agora em nova edição pela Guimarães/Babel, graças à inclusão que dele fez Fernando Pessoa (1888-1935) no plano editorial da Olisipo (1921-1923). 
 
 
 

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