REPUBLICAÇÃO: texto originalmente publicado na edição de 1 de Abril de 2012 do PÚBLICO
(Foto: Reuters)
Portugal esteve à beira do ataque de nervos nas horas que antecederam o
pedido da ajuda externa. Sócrates, cada vez mais só e sob pressão, pediu
a Cavaco que convencesse os banqueiros a comprar dívida, Carlos Costa
mandava cartas secretas, Teixeira dos Santos agia por conta própria.
Entre a tragédia e o drama, as loucas 72 horas que antecederam o pedido
de resgate.
Aquele foi um tempo
estranho. É difícil imaginar ambiente mais explosivo. E, tão cedo, os
protagonistas das 72 horas que anteciparam o pedido de intervenção externa a
Portugal não os vão esquecer. Por razões diferentes, o país encontrava-se refém
da acção de três homens: do primeiro-ministro, José Sócrates, do ministro das
Finanças, Teixeira dos Santos, e do governador do Banco de Portugal (BdP),
Carlos Costa. Só eles tinham os números, a informação e o acesso aos fóruns
internacionais onde tudo se decide. Nos corredores de São Bento, no Terreiro do
Paço e nas instalações do BdP, respirava-se tensão.
O primeiro-ministro recusava pedir o resgate, que, acreditava, teria um impacto na economia devastador. O ministro das Finanças tentava chamá-lo à razão. O governador do BdP alertava para o risco iminente de default. Havia, por isso, que actuar. Foi o que fez Teixeira dos Santos. Ao final da tarde de 6 de Abril de 2011. Pouco depois, o primeiro-ministro rendeu-se. Eram 20h38. As TV interromperam os telejornais para emitir aquela que, porventura, terá sido a declaração mais importante da vida política de José Sócrates.
O primeiro-ministro recusava pedir o resgate, que, acreditava, teria um impacto na economia devastador. O ministro das Finanças tentava chamá-lo à razão. O governador do BdP alertava para o risco iminente de default. Havia, por isso, que actuar. Foi o que fez Teixeira dos Santos. Ao final da tarde de 6 de Abril de 2011. Pouco depois, o primeiro-ministro rendeu-se. Eram 20h38. As TV interromperam os telejornais para emitir aquela que, porventura, terá sido a declaração mais importante da vida política de José Sócrates.
Um dia, quando os
documentos confidenciais ficarem acessíveis, saber-se-á com rigor por que razão
o país foi forçado, pela terceira vez na sua história democrática, a procurar
ajuda externa. Para já, é possível recuar um pouco no tempo e reconstituir o
quadro de incerteza e dramatismo que se vivia.
Para muita gente,
Teixeira dos Santos deveria ter agido um ano antes. A rejeição do Programa de
Estabilidade e Crescimento (PEC) IV, a 23 de Março de 2011, precipitou uma
crise política em curso desde Outubro de 2010. Para Eduardo Catroga, do PSD, que negociou com o PS o
Orçamento do Estado (OE) para 2011, é preciso retroceder seis meses, para
compreender o resgate de Portugal.
Marcelo: FMI
movimenta-se Outubro de 2010. O contexto internacional
deteriorara-se, com o resgate à Grécia e a crise na Irlanda a agravar-se. Em
Portugal, as más notícias sucediam-se. O Governo estava sob pressão da UE. As
negociações entre o PS e o PSD, para o PEC III, começaram no Parlamento e acabaram em casa de Eduardo Catroga, após
vários percalços que minaram a confiança entre os líderes partidários.
“O Governo não
sabia qual era o défice de 2010 e 2009, o que tornava evidente que Portugal ia
pedir ajuda”, lembrou Catroga. Em Belém, o Presidente da República (PR)
acautelava a segunda reeleição, agendada para Janeiro, e evitava acentuar as
divergências com o partido no poder.
29 de Outubro. O Crédit Agrícole considerou que, dos seis países com problemas,
Portugal apresentava a pior execução orçamental. Naquela sexta-feira, havia um
debate para travar em Belém. O PR chamou, pela sexta vez, o Conselho de Estado.
Eram 17h00 quando 18 dos 19 conselheiros deram entrada no Pátio dos Bichos para
avaliar o quadro político. A reunião, convocada depois de PS e PSD terem rompido conversações,
prolongou-se por cinco horas.
A situação era
grave. Marcelo Rebelo de Sousa marcou presença. “Antes da apreciação e da
votação do OE para 2011, tinham-se multiplicado os contactos indirectos, a
partir de sectores europeus e internacionais ligados ao FMI, para nos
sensibilizar para o endividamento externo, as contas públicas e para a
premência da inflexão das políticas seguidas.”
9 de Novembro. Os juros da dívida a 10 anos quebraram a barreira dos 7% definida por Teixeira dos Santos como o valor a partir do qual Portugal devia pedir ajuda. O ministro sabia, agora, que à sua espera podia estar o impasse.
9 de Novembro. Os juros da dívida a 10 anos quebraram a barreira dos 7% definida por Teixeira dos Santos como o valor a partir do qual Portugal devia pedir ajuda. O ministro sabia, agora, que à sua espera podia estar o impasse.
Viagem ao Médio
Oriente 15 de Janeiro de 2011. 11h05. Sócrates
procurava escapar à onda de choque dos resgates da Grécia e da Irlanda. Depois
da China e do Brasil, parte para o Médio Oriente. Ao Qatar e aos Emirados
Árabes Unidos levava um séquito de 60 pessoas, entre governantes, gestores e
empresários. Naquele dia, o primeiro-ministro era a imagem do optimismo.
“Acreditava que não ia precisar de pedir o bailout pois arranjaria
solução”, contou um membro da comitiva.
Sentado na primeira
fila, Sócrates deslocava-se com frequência à parte de trás do aparelho, onde se
encontravam os convidados, o que foi interpretado como uma tentativa de
esconder o mau ambiente que existia entre ministros que viajavam à frente. Uma
fonte empresarial que viajou no voo fretado reparou: “Havia uma frieza nas
relações entre o PM e alguns ministros que se notou. Quase não falavam uns com
os outros.” Enquanto se desdobra em diálogos com os convidados, Sócrates
praticamente não dirige a palavra ao ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE),
que está sentado ao seu lado.
17 de Janeiro. As notícias circulam. Há divergências na equipa ministerial a propósito do que está a ser negociado. Horas depois de Sócrates explicar que “a venda de dívida pública portuguesa a Abu Dhabi não foi discutida”, Luís Amado respondia: “Acredito que os ministros das Finanças tenham falado sobre isso [venda de dívida].” O desentendimento ficou reconfirmado na discussão viva que protagonizaram, em plena viagem, no Abu Dhabi, presenciada por membros da delegação.
17 de Janeiro. As notícias circulam. Há divergências na equipa ministerial a propósito do que está a ser negociado. Horas depois de Sócrates explicar que “a venda de dívida pública portuguesa a Abu Dhabi não foi discutida”, Luís Amado respondia: “Acredito que os ministros das Finanças tenham falado sobre isso [venda de dívida].” O desentendimento ficou reconfirmado na discussão viva que protagonizaram, em plena viagem, no Abu Dhabi, presenciada por membros da delegação.
Já havia sinais de
que Amado, hoje chairman do Banif, estava em rota de colisão com
Sócrates. O MNE defendera ao Expresso a possibilidade de a Constituição
impor limites ao défice, o que o primeiro-ministro rejeitava.
DSK: ‘Ele não
ouve ninguém’ 19 de Janeiro. A visita ao Qatar e aos
Emirados Árabes revelou duas realidades: os países exportadores de poupança não
estavam disponíveis para comprar dívida nacional; e as relações na cúpula do
Governo estavam estragadas. Sócrates já se encontrava em Lisboa quando, a meio
da tarde, leu no Guardian: “Depois de chegar do Médio Oriente, Sócrates
telefonou a Merkel desesperado, dispondo-se a tudo fazer para que não fosse
necessário recorrer ao bailout”. O jornal relatava, ainda, que o
director-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, estava ao lado da chanceler que
o inquiriu. A resposta foi lapidar: “É inútil. Sócrates não segue nenhum
conselho.” Daí a minutos, o Governo desmentia o Guardian.
São muitos os
sinais que indicam que Teixeira dos Santos, nesta fase, já não descartava a
hipótese da ajuda, mas recusava puxar a cavilha e provocar a solução extrema.
“Tinha consciência e percebia o problema, e deixava isso claro nas reuniões.
Mas não tinha força política para fazer fosse o que fosse. Queria sair dali,
mas sabia que, se batesse com a porta, antecipava o resgate”, conta um
banqueiro. “Só deu o murro na mesa quando não havia nada a fazer”.
O ex-ministro da
Indústria de Cavaco Silva, Mira Amaral, presidente do BIC, alerta: “Alguém
fechado no gabinete em São Bento, sentado frente a frente com um
primeiro-ministro determinado, e ter de o enfrentar, não é para qualquer um. É
um ambiente pesado.” Sócrates esqueceu-se “que não dominava as variáveis
externas. Também Salazar, quando foi da guerra colonial, e como controlava tudo
cá dentro, desvalorizou essa componente e deu no que deu.”
CE e BCE enviam missão Início
de Fevereiro. Os sinais de que vinha a caminho uma
surpresa estavam aí. Datam, aliás, dessa altura, as intervenções do
ex-secretário de Estado das Finanças, Costa Pina, junto da banca. Por via
telefónica, ou cara a cara, pedia aos banqueiros que colaborassem com o Governo
dando crédito às empresas públicas e comprando Obrigações do Tesouro. Garantia,
assim, o sucesso dos leilões de dívida pública.
“José Sócrates vivia num mundo irreal, sem consciência de que o financiamento fácil tinha acabado e, mais mês, menos mês, teríamos uma crise de liquidez e de finanças públicas”, defende Catroga. “As Finanças talvez não tivessem consciência total do impacto do endividamento acumulado das empresas públicas (EP), nem a noção completa dos encargos diferidos das Parcerias Público-Privadas (PPP).”
“José Sócrates vivia num mundo irreal, sem consciência de que o financiamento fácil tinha acabado e, mais mês, menos mês, teríamos uma crise de liquidez e de finanças públicas”, defende Catroga. “As Finanças talvez não tivessem consciência total do impacto do endividamento acumulado das empresas públicas (EP), nem a noção completa dos encargos diferidos das Parcerias Público-Privadas (PPP).”
Sexta-feira, 4
de Fevereiro. Bruxelas. O Conselho Europeu reúne para
discutir o “pacto de competitividade” proposto pela Alemanha e pela França. A
partir dali, a CE e o BCE passam a vigiar as reformas que vão ser implementadas na zona euro. Na
capital belga, dizem que o novo esquema começará a ser implementado em Portugal
e a seguir em Espanha. Teixeira dos Santos surge, nessa altura, a defender a
criação, célere, do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), um
mecanismo de ajuda aos Estados-membros. Mas a solução já dividia os europeus.
21 de Fevereiro. “Não defendo, nas actuais condições de acesso, o recurso ao FEEF em
parceria com o FMI, porque as experiências da Grécia e da Irlanda correram
muito mal.” Era isto que dizia, nessa manhã, Catroga ao Diário Económico.
Uma missão chefiada por Jürgen Kröger (e Heinz Janse), da UE, e por Rasmus Rüffer (e Beatrice Pierluigi), do BCE, desembarcava, nessa segunda-feira, em Lisboa. Vêm ajudar o Governo a
preparar um plano. Sem sucesso, como se constatará em breve. Kröger e Rüffer seriam depois indicados pelas instâncias europeias para a troika.
Portugal é tema de
conversa no G20. Os europeus pedem a Lisboa que faça o trabalho de casa. A CE e
o BCE, em particular, manifestam uma grande preocupação: evitar o terceiro
resgate, por temerem o efeito dominó na Espanha e na Itália. Os dirigentes
europeus estão, por isso, disponíveis para apoiar um programa que não caia na
situação extrema da assistência com o FMI. A partir daí, os contactos entre
Sócrates e os presidentes da CE, Durão Barroso, e do BCE, Jean-Claude Trichet,
intensificaram-se. Olli Rehn articulava-se com o ex-ministro das Finanças.
Carlos Costa recebia informação de Trichet e, de tempos a tempos, cruzava-se
com o amigo Olli Rehn.
Sócrates mudara
de planeta. Início de Março. Em São Bento, havia uma
revolução. Sócrates parecia ter mudado de planeta. Quem reuniu com ele,
recorda-se que andava frenético a acompanhar a evolução das bolsas, dos leilões
de dívida pública, das opiniões das agências de rating. “Mandara instalar um
terminal da Reuters perto de si para seguir a par e passo os mercados”,
notou um colaborador. Um quadro do Ministério das Finanças atesta que o
primeiro-ministro “achava que as negociações com Bruxelas eram exageradas e
queria um ajustamento suave. Em 2010, no PEC III, os cortes aos salários da
função pública tinham sido feitos contra a sua consciência”. Governar com
políticas de austeridade não era a sua praia. O método é conhecido. Em São
Bento impera um slogan: “É inútil lançar medidas de austeridade para o
triturador do mercado.”
Os dados divulgados
a meio de 2011, pelo INE, revelam o descontrolo dos dinheiros do Estado: o
défice de 2010 disparou para 8,6% do PIB (abaixo dos 9,1% apurados, daí a
semanas, pela troika) e o de 2009 para 10%. A dívida pública supera, pela
primeira vez, os 90% do PIB.
A nomenclatura
socialista viu ali oportunidade de criticar o ministro independente. Dias
depois, António Costa, na Quadratura do Círculo, faz menção à responsabilidade
de Teixeira dos Santos na derrapagem das contas públicas.
Quarta-feira, 2
de Março. José Sócrates encontrou-se muitas vezes com
Angela Merkel. Ambos assumiram funções de primeiro-ministro em 2005 e, em 1999,
tinham os dois a pasta do Ambiente e juntavam-se nos fóruns internacionais. Os
contactos activaram-se durante a crise.
Em Berlim, o
primeiro-ministro garantia um défice em 2011 abaixo de 4,6% do PIB (ficou em 5,8%
com medidas extraordinárias). Antes, tentou persuadir Merkel a aceitar um novo
plano de austeridade, com o apoio de Bruxelas, mas que evitava a intervenção
explícita. Os dois reuniram a sós, deixando à porta Teixeira dos Santos e o seu
homólogo alemão. No final do encontro, Merkel mantinha o tabu sobre a
flexibilização do FEEF.
Uma fonte do euro
sistema lembra que, ao contrário de Barroso, de Rehn e de Trichet, a chanceler
deu luz verde ao plano português com reticências. Para Merkel, os
Estados-membros não se auto-regulam e tendem a ser tolerantes uns com os
outros. Era preciso um polícia. O envolvimento do FMI gerava, todavia,
controvérsia. Em Bruxelas, havia quem considerasse a solução humilhante. Uma
divergência ideológica com a qual Sócrates concordava. De volta a Lisboa, o
ministro das Finanças começou a preparar um plano com a CE e o BCE.
A ajuda já está
a caminho 4 de Março. Os mercados de liquidez estavam
a secar. Faria de Oliveira, Santos Ferreira, Ricardo Salgado, Fernando Ulrich,
Nuno Amado chegam, nessa sexta-feira, a São Bento. Sócrates, Teixeira dos
Santos e Costa Pina estão à espera e pedem aos banqueiros um esforço de apoio
ao Estado na compra de dívida pública.
Conta Ulrich: “Fiquei com a convicção, pela forma como decorreu a conversa, de que tínhamos chegado ao fim da linha e já não íamos lá. Íamos pedir a intervenção, só não sabia quando, nem sob que forma.” Através de um plano formal, com o FMI, ou como queria Trichet (PEC IV).
Conta Ulrich: “Fiquei com a convicção, pela forma como decorreu a conversa, de que tínhamos chegado ao fim da linha e já não íamos lá. Íamos pedir a intervenção, só não sabia quando, nem sob que forma.” Através de um plano formal, com o FMI, ou como queria Trichet (PEC IV).
“Era muito difícil,
naquele período, aumentar o apoio à aquisição de dívida pública para financiar o
défice nos termos em que estava a ser feita. Havia dificuldade em sustentar a
situação”, explica Nuno Amado.
9 de Março. Garantida a reeleição, Cavaco manifestou desconfiança política no
Governo.
“A UE
atravessou-se”
10 de Março. Véspera da cimeira extraordinária da UE. No mais absoluto recato, o Governo
fechou um acordo com os parceiros europeus.
Ao início da tarde,
Barroso e Trichet confirmam que vão subscrever um texto a ratificar o pacote de
austeridade. Em contrapartida, Sócrates assinará uma carta de intenções a
comprometer-se a implementar as medidas propostas. Uma inovação.
As versões não são
coincidentes. Pedro Silva Pereira, braço-direito de Sócrates, assegura: “O
Governo exigiu que o BCE e a CE se atravessassem por escrito, pois queria que dessem uma
garantia formal aos mercados de um apoio solidário ao PEC IV. E conseguiu.” Uma
fonte da UE esclareceu que “Merkel e Trichet, como desconfiavam do empenho do
Governo em levar por diante as reformas, exigiram que se responsabilizasse perante
as instâncias europeias.”
“Sócrates anunciava
medidas severas, mas não acreditava nelas. Ao mesmo tempo, defendia, nos
discursos, o TGV, as auto-estradas, que geram défice externo e não capital
reprodutivo”, notou uma gestor financeiro. “E achava que austeridade a mais
criava um ciclo vicioso que agravava os problemas, o que, de certa forma, se
está a confirmar.”
Em São Bento, há
questões para resolver: o acordo com o BCE e a CE não deve aparecer como imposição de Bruxelas, mas como opção de
política nacional (daí o PEC IV); a data de entrega do plano em Bruxelas. Ora,
nos EUA, já se diz que Portugal não chega a Abril sem se ajoelhar. É preciso um
sinal. As linhas gerais do PEC IV serão apresentadas, no dia seguinte, na
reunião de chefes de Estado e de Governo.
11 de Março.
Sexta-feira. Os portugueses são surpreendidos, às
10h00, por uma declaração de Teixeira dos Santos, a anunciar medidas adicionais
para 2012 e 2013, articuladas com Bruxelas: cortes nas pensões acima de 1500
euros, mais impostos, políticas de flexibilização das rendas e do trabalho.
Horas depois,
Merkel louvou a “coragem de José Sócrates”. Os presidentes da CE e do BCE “saúdam e apoiam” as
medidas, que consideram uma “resposta política ambiciosa”. O braço-direito de
Passos Coelho, Miguel Relvas, classificou como “positivo” “tudo o que seja
reforçar” as metas orçamentais.
Os incidentes que
envolveram as negociações para o OE para 2011, entre o PS e o PSD, estavam omnipresentes. Os
relatos da época apontam, nas horas seguintes, para um cenário de rebelião no PSD. Marco António, o actual
secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social, impôs-se: “Ou há
eleições no país, ou no partido.” O plano pouco ortodoxo corria, agora, o risco
de ser chumbado. Mas Sócrates acreditava que, com o seu voluntarismo, ia
conseguir resistir ao FMI até à entrada em funcionamento do FEEF, prevista para
Junho. Mas teria Lisboa uma hipótese? O quadro político não gerava as condições
necessárias para aplicar o programa, pois o PS governava em minoria e era fácil
criar maiorias de bloqueio. Existia, ainda, um consenso negativo contra o
primeiro-ministro visível na rejeição unânime do PEC IV.
PSD rejeita PEC IV
12 de Março. Pedro Passos Coelho informou que não aprovava o PEC IV. “O Governo
negociou com a CE e com o BCE medidas que ocultou ao Parlamento e ao país. Esse foi o caminho errado
que escolheu e que terá de justificar.” João Tiago Silveira, do PS,
contra-atacou e aludiu ao braço-de-ferro que marcava a agenda do dia: “Ficou
claro que a ideia lançada pelo PSD, de que não tinha sido suficientemente informado sobre o PEC IV, é
falsa e foi desmascarada. Passos reuniu em São Bento”.
Já de madrugada, em
Bruxelas, Sócrates lamentou a decisão do PSD. Mas, para a oposição, as suas motivações eram claras: recusar a ajuda
do FMI; ganhar tempo até às eleições legislativas; preservar o poder.
“CE o BCE evitam resgate”
“Testemunhei que a
CE e o BCE não queriam que Portugal fizesse um pedido de assistência financeira,
igual ao grego e ao irlandês, e estavam empenhadas na aprovação do PEC IV”,
explicou Carlos Costa, ainda que o BdP não tenha sido envolvido. Era Trichet
quem o informava.
O número dois de
Sócrates não duvida: “O apoio dado ao PEC IV [BCE e CE] significou uma recusa
colectiva e solidária do cenário de ajuda externa para Portugal, pois havia uma
alternativa, com garantia formal de apoio junto dos mercados.”
Para uma fonte
próxima dos socialistas, “o momento exigia uma negociação política alargada e,
até, envolta em grande dramatismo. Sócrates não podia ter actuado como se
tivesse maioria absoluta, e tinha de estender a mão a Passos Coelho.”
Prosseguiu: “Como não estava disponível para dar nada em troca, fez o oposto.”
Se o PEC IV, “que, pessoalmente, até acho que deveria ter sido aprovado, era
para ser tratado a sério, não foi”. Era táctica política, para colocar o ónus
no PSD de um previsível recurso a apoio externo? “Se foi isso, então,
erraram. Havia no PSD uma linha radical que considerava que não ia lá sem eleições e se
devia deitar abaixo o Governo.”
Eduardo Catroga
pergunta: “Qual era a obrigação do Governo, da UE e do BCE? Era procurar o PSD, que tinha viabilizado o OE
de 2011, e dizer-lhes: ‘Vamos, em conjunto, encontrar uma solução’. Mas nem
informaram o Presidente, nem obrigaram Sócrates a dialogar com o PSD.” E contou o que disse, na
primeira reunião coma troika, a Kröger e a Rüffer: “A vossa avaliação que deu
origem ao PEC IV (défice real em 2011 de 4,6%, de 3% em 2012, de 2% em 2013)
não resistirá à análise fina dos mercados.”
Um economista do PS
nota que “a recusa do PSD em aceitar as limitações aos benefícios e deduções fiscais e as
alterações nas tabelas do IVA (que agora aprovou), no PEC III, implicaram uma perda de
cerca de 500 milhões de receita”, decisão que “o Governo está agora a sentir.”
Daí a dias, o
conselheiro de Estado Vítor Bento, através de um post intitulado Dúvida
Metódica, observou que o plano levado à cimeira do dia 10 materializava uma
ajuda financeira europeia encapotada, que “desencadeou” a crise política.
PEC IV cai,
Sócrates sai 23 de Março. E, portanto, na
quarta-feira, a oposição deixou cair o PEC IV. O curso de obstáculos estava
lançado. Começava o frenesim. As agências de rating eram rápidas e metralharam
a República. Instantes depois, Teixeira dos Santos participou a Sócrates: “O
financiamento geral da economia está em risco e é necessário avançar já para o
pedido de resgate.” Eram 21h00. Há conferência de imprensa em São Bento.
Sócrates pede a demissão. Antes passou por Belém. Havia excesso de confiança, as
sondagens eram, por ora, favoráveis ao partido do Governo. O método é
conhecido. Sócrates partiu à ofensiva: vitimizando-se e responsabilizando a
oposição de ter colocado a “recuperação da economia refém da sua
irresponsabilidade”.
24 de Março. “O papel do Governador do BdP foi determinante na procura de soluções
através da sua intervenção no BCE”, considera Faria de Oliveira. Habitualmente comedido, Carlos Costa
circulava agora a 100 à hora.
Nessa quinta-feira,
chamou os banqueiros. António de Sousa, da APB, avisou: “Cerca de 90%, ou mais,
do total de dívida nacional está nas mãos da banca portuguesa.” Em simultâneo,
o ainda director do departamento europeu do FMI, António Borges, movia
influências. O mesmo fazia Carlos Costa. Os dois economistas surgem articulados
a passar mensagens coincidentes aos conselheiros de Estado. É hora de pedir o
resgate de Portugal.
25 de Março. Na cimeira europeia da Primavera, discute-se o fundo de socorro do euro. Há sempre uma primeira vez. Para o ex-primeiro-ministro, chegou no final de Março. Merkel faz uma demonstração de força e diz-lhe: a assistência a Portugal terá de envolver o FMI. Mas a intervenção externa, nos moldes actuais, teria de ser requerida pelo Governo, ou resultar de uma ruptura financeira.
Em Bruxelas,
estavam atentos às declarações do primeiro-ministro português. Trichet
comentaria, mais tarde, que Sócrates teve “um comportamento digno” e não entrou
num “passa culpas” a justificar o chumbo do PEC IV.
Aproxima-se uma
ronda de contactos ao mais alto nível. Marcelo Rebelo de Sousa testemunhou: “As
movimentações regressaram na Primavera de 2011 e foram, desta vez, muito claras
antes da tomada de decisão do Governo quanto à ajuda externa e subsequente
intervenção da UE e do FMI.”
Eanes: “Nunca
assinei nada” 26 de Março. O PR convoca o
Conselho de Estado para daí a quatro dias. No Porto, na casa de Artur Santos
Silva, chairman do BPI e futuro presidente da Fundação Gulbenkian, trabalha-se.
O banqueiro mantém debates vivos sobre o futuro do país com Mário Soares,
Alexandre Soares dos Santos, António Barreto.
O sentido da
votação parlamentar, no plano doméstico, acelerara os contactos para a
elaboração do manifesto: “Um compromisso nacional”. O documento, que teve a
contribuição activa de Barreto e de José Pena Amaral, do BPI, foi subscrito por
40 promotores: ex-presidentes da República, cientistas, académicos, gestores,
empresários.
Um manifesto cheio
de valor político, pois, pela primeira vez, juntou Soares, Ramalho Eanes e
Jorge Sampaio. O general comentou: “Nunca assinei nada, vou fazê-lo pela
primeira vez.”Para Santos Silva, vivia-se, então, “um dos momentos mais
críticos da história do nosso tempo”. Perante a “incapacidade de os políticos
portugueses se entenderem, quer a nível partidário, quer no plano
institucional, apelámos a que fossem assumidos compromissos pelos principais
partidos e com o apoio do PR”. Um exigia uma acção imediata: “Impedir a ruptura
financeira do Estado”.
Santos Silva
prosseguiu. “Queríamos que o Governo que se seguisse às eleições fosse apoiado
por uma maioria inequívoca que construísse o maior consenso possível à volta da
consolidação orçamental, do controlo da dívida externa, das reformas
estruturais.”
Salgado fez-se
ouvir 29 de Março. De Londres, nessa terça-feira, o
presidente do BES ouvia-se. “O chumbo do PEC IV precipitou os downgrades
das agências de rating sobre a banca. Quem diz que os ratings da República e
dos bancos também cairiam se fosse aprovado não sabe o que diz, pois não é
verdade. Basta ler os fundamentos das decisões das agências de rating.” Uma
fonte do sector explicou: “Salgado tinha consciência que, se o FMI chegasse a
Portugal, a questão bancária ia saltar para cima da mesa, pois estudou o
conteúdo dos programas na Grécia e na Irlanda e temia, ainda, o impacto
recessivo na economia”. Salgado manifestava preocupação com o que se passava em
Atenas e Dublin, com a fuga e a redução de depósitos e as maiores dificuldades
de ajustamento.
Devia o PEC IV ter
sido aprovado? Ulrich responde: “O diagnóstico era altamente incompleto e as
medidas insuficientes. E o Governo não tinha apoio maioritário no Parlamento e
não era credível.”
31 de Março.
Quinta-feira. Em entrevista à TVI, Teixeira dos
Santos afirma que tinha confiança de que não seria necessária assistência externa
se o PEC IV tivesse passado. “Neste momento, não tenho esta confiança. Mas não
será o Governo a pedir a ajuda, pois não tem legitimidade, condições ou
credibilidade para ter a confiança das entidades externas.”
Já se sabe que a “mola” é sempre o dinheiro e a Portugal faltava o lubrificante. O cenário agudizara-se, repentinamente. As empresas públicas aparecem a dizer que não têm verba para pagar salários. Teixeira de Sousa via o desastre aproximar-se.
Anteviam-se grandes sarilhos. Por esses dias, começou a constar que o BdP se substituíra ao BCE, comprando títulos de dívida nas carteiras dos bancos. E Trichet aceitara a solução mediante garantia pessoal de Carlos Costa de que a acção era pontual.
Já se sabe que a “mola” é sempre o dinheiro e a Portugal faltava o lubrificante. O cenário agudizara-se, repentinamente. As empresas públicas aparecem a dizer que não têm verba para pagar salários. Teixeira de Sousa via o desastre aproximar-se.
Anteviam-se grandes sarilhos. Por esses dias, começou a constar que o BdP se substituíra ao BCE, comprando títulos de dívida nas carteiras dos bancos. E Trichet aceitara a solução mediante garantia pessoal de Carlos Costa de que a acção era pontual.
BdP envia cartas
secretas.
Primeiro de
Abril. Era dia das mentiras, mas não para o
governador, que enviou cartas históricas que vão assumir grande relevância,
pois marcam o início do fi m de uma era. Uma foi dirigida ao Presidente da
República, outra ao primeiro-ministro. Ao certo, só o redactor e os
destinatários conhecem o teor. Mas, à luz do que hoje se sabe, é provável que
os tenha alertado para as condições de financiamento da República e desafiado a
actuar no imediato. As missivas foram, aliás, mencionadas em encontros que
ocorreram nesse período conturbado. Uma alto responsável observou que “Carlos
Costa entendeu que tinha a responsabilidade de chamar a atenção de Cavaco e de
Sócrates e quis que a sua acção ficasse registada para memória futura.”
Sábado, 2 de
Abril. José Sócrates garantiu que não está disponível
para governar com o FMI.
4 de Abril. Há sinais que não enganam. Dez dias depois do chumbo do PEC IV, era o inferno. O Governo estava sob pressão das agências de rating, dos investidores, dos adversários, das sondagens, dos media. É provável que esta segunda-feira fique registada como a data que estabeleceu o limite a partir do qual deixou de ser possível prosseguir um caminho sem o FMI.
4 de Abril. Há sinais que não enganam. Dez dias depois do chumbo do PEC IV, era o inferno. O Governo estava sob pressão das agências de rating, dos investidores, dos adversários, das sondagens, dos media. É provável que esta segunda-feira fique registada como a data que estabeleceu o limite a partir do qual deixou de ser possível prosseguir um caminho sem o FMI.
O corrupio começou
às 10h30 da manhã. Faria de Oliveira, Salgado, Ulrich, Santos Ferreira e Amado
dirigem-se às instalações do BdP.
É possível imaginar
a cena. À porta do edifício, na esquina da Almirante Reis com a Febo Moniz, com
escassos segundos de diferença, os cinco motoristas estacionam as “limusines”
em fila indiana. Mau sinal. Os banqueiros sobem ao terceiro andar para reunir.
Habitualmente contido, Carlos Costa mostra sinais de apreensão. Não é para
menos. É provável que, naquela altura, fosse o único a ter no seu iPad a
fotografia global. Expôs as necessidades de financiamento de 30 mil milhões de
euros resultantes de não ter sido aprovado o PEC IV.
Havia harmonia de
posições. “Não pedir ajuda não só ia afundar a República, mas também os
bancos.” Todos ali estão conscientes de que a situação é crítica, com os juros
da dívida nacional a escalarem os 11%. O momento exige novo encontro ao final da
tarde. Este determinante.
“Comigo não
haverá default.” 18h00. O cortejo de viaturas
topo de gama converge agora para o Ministério das Finanças, onde o governador
reúne com Teixeira dos Santos. Os cinco banqueiros entram para a sala contígua
ao gabinete do ministro, onde vão estar Álvaro Aguiar e o secretário de Estado
Costa Pina. O tom da conversa é grave. O mais sénior dos presentes, Ricardo
Salgado, é conhecido pela fleuma que nunca perde. Nesse fim de tarde, é de todos
o mais assertivo. A reunião é participada. Teixeira dos Santos interveio:
“Comigo à frente das Finanças, não haverá default.” Antes de abandonarem
o Terreiro do Paço, os banqueiros informam que têm entrevistas pedidas pela TVI
e que as vão aproveitar para passar mensagens. Um deles confiará mais tarde:
“Sinceramente, quando cheguei ao carro, apesar de ter percebido que ele
[Teixeira dos Santos] estava determinado, não pensei que actuasse nos dias
próximos.”
Quando deixam o
Terreiro do Paço, têm uma certeza e muitas interrogações: como se convence o
primeiro-ministro? O contexto das eleições legislativas vai influenciar a
decisão? Será tomada a tempo, ou seja, antes da reunião do Ecofin, em Budapeste,
no fim-de-semana? Receios justificados.
O ministro fala com
José Sócrates, a quem verbaliza o que se passou no encontro com os banqueiros.
E sugere-lhe que os ouça. Ficou combinado que Salgado, o decano, iria a São
Bento. “Sócrates tinha apreço pessoal por Salgado, não só pelas suas atitudes,
mas porque dava especial atenção às suas opiniões”, observou uma fonte ligado
ao processo.
Na noite de
segunda-feira, às 22h00, Carlos Santos Ferreira surge no écran da TVI:
“Portugal deve pedir já um empréstimo externo.” No dia seguinte, à mesma hora,
será a vez de Ricardo Salgado aconselhar o Governo a intervir.
Sócrates
telefona a Cavaco
Dia 5 de Abril. Salgado é recebido por Sócrates, que lhe pede tempo para explorar
hipóteses, antes de avançar para a solução extrema. Mas tempo é o que os
banqueiros dizem não ter. É aí que Sócrates telefona ao Presidente da República
a pedir que persuadisse o sector financeiro a continuar a comprar dívida
pública. “O primeiro-ministro estava convencido de que era má vontade dos
banqueiros”, conta um ex-colaborador, que até concorda.
As movimentações
multiplicavam-se em Lisboa. Um dos encontros importantes ocorreu entre Mário
Soares e Carlos Costa, a pedido do governador. Costa evocou o contexto
dramático. Soares respondeu-lhe: “Amanhã pela manhã falo com Sócrates”.
18h00. Os banqueiros têm agora encontro marcado com Passos Coelho, a quem
expressam “a absoluta necessidade de oposição e Governo estarem afinados numa
actuação em defesa do Estado.”
Um dia muito
intenso
Dia 6 de Abril. O dia em que Portugal requer assistência externa. Era seu dever dar
sequência a um pedido do primeiro-ministro. Cavaco Silva chamou,
individualmente, os banqueiros. E disse: cada um terá de assumir as suas
responsabilidades e o interesse geral do país está acima de tudo. Explicou,
mais tarde, que interveio a pedido do José Sócrates.
“O Presidente
mostrava preocupação, estava informado da situação, mas não sei se tinha
verdadeira consciência da insustentabilidade a que Portugal chegara nos últimos
três meses”, contou um gestor que se cruzou com ele.
Num dos capítulos
do livro Um Político Assume-se, Mário Soares relata “a discussão gravíssima”
que manteve com Sócrates na manhã de 6 de Abril: “Eu queria que ele pedisse o
apoio e ele não queria. Falei muito, durante muito tempo, duas horas ou três,
discutimos brutalmente, mas amigavelmente [...]. O ministro das Finanças
interveio mais tarde e acabou por ceder.” Soares destacou: “É preciso ter uma
grande coragem para aguentar o que ele aguentou.”
Final da manhã
de quarta-feira. A pressão sobre Portugal
intensificava-se. Os investidores exigem juros de 9% para financiar Portugal.
15h00. Aproximava-se o fim. Teixeira do Santos foi almoçar com os secretários
de Estado, naquela que, possivelmente, terá sido uma das últimas refeições em
que terão estado juntos na qualidade de governantes. Costa Pina, Emanuel dos
Santos, Sérgio Vasques, Gonçalo Castilho dos Santos ouvem o ministro: “Até ao
final do dia, algo farei.”
As horas que antecederam a intervenção histórica foram de grande dramatismo. “Ele queria entregar a alma ao criador, pois estava convencido que de outra forma não se ia lá. Agiu isoladamente, sofreu só”, assinalou Francisco Bandeira, na altura vice-presidente da CGD. Teixeira dos Santos vivia com o dilema moral: seguir o comandante ou os princípios de economista e académico.
As horas que antecederam a intervenção histórica foram de grande dramatismo. “Ele queria entregar a alma ao criador, pois estava convencido que de outra forma não se ia lá. Agiu isoladamente, sofreu só”, assinalou Francisco Bandeira, na altura vice-presidente da CGD. Teixeira dos Santos vivia com o dilema moral: seguir o comandante ou os princípios de economista e académico.
Não é, talvez, um
momento que goste de relembrar. Sentia-se impotente quando pegou no auscultador
para, uma última vez, se manifestar junto de Sócrates. “Não vou ao Conselho
Europeu de Budapeste [que começava no dia seguinte] sem tomares uma decisão.” A
velha cumplicidade perdera-se. Foi num quadro de desentendimento que os dois
desligaram o telefone. O primeiro-ministro resistia. Um socialista explicou:
“Ele continuava a acreditar que havia alternativas e sentia-se empurrado para
uma solução que não queria, porque achava que ia agravar por muitos anos a
situação do país.” Concede, todavia, que Sócrates “encarava essa via como uma
derrota pessoal e temia o resultado eleitoral”.
“O que vai Sócrates fazer?”
“O que vai Sócrates fazer?”
16h00. “Teixeira dos Santos estava ferido pela incompreensão de quem não
percebia que Portugal tinha chegado ao fim da linha. Foi um acto patriótico”,
diz Bandeira.
Durante esse tempo, Carlos Costa viajava para Frankfurt, onde se reúnem, duas vezes por mês, os governadores dos bancos centrais europeus. Quando embarcou, durante a manhã, levava apenas a certeza: Portugal teria de pedir ajuda antes da reunião de Budapeste.
Já passava das 17h00 em Frankfurt. Menos uma hora em Lisboa, quando subiu ao piso 36 da Eurotower, onde fica a sala do Conselho de Governadores. Antes de iniciar a reunião, Trichet trocou palavras com o português: “O que vai José Sócrates fazer?”. Carlos Costa terá explicado que o ministro das Finanças está consciente de que deve actuar no imediato, mas não sabemos como vai reagir o PM.
Na grande mesa
redonda, à direita de Trichet, está o vice-presidente do BCE, Vítor Constâncio, que
sabia bem o que se estava a passar. Em 2010, num encontro privado, tinha
chamado a atenção para a situação em que Portugal se encontrava, dizendo: “É
mais complexa do que as elites antecipam.”
À esquerda, a cinco
lugares de Trichet, sentado entre o italiano Mario Draghi, e Josef Bonnici,
governador de Malta, Carlos Costa tem os olhos colados ao iPad. Espera por uma
mensagem que não chega.
A quase dois
milhões de quilómetros de distância, Teixeira dos Santos preparava-se para
quebrar a fidelidade ao primeiro-ministro. Será ele a protagonizar uma das
raríssimas ocasiões em que Portugal interessa ao mundo. Antes de pegar
novamente no telefone, escreveu uma carta oficial a Sócrates a replicar o
sentido da conversa que tinham tido antes. À semelhança do que Carlos Costa
tinha feito dias antes, quis deixar prova para memória futura.
“As relações
estão cortadas”
Depois, o
ex-ministro ligou para a subdirectora do Jornal de Negócios, Helena
Garrido. São 18h02, em Lisboa, quando o site económico reproduz declarações
inesperadas que veicula em português e inglês. “É necessário recorrer aos
mecanismos de financiamento disponíveis no quadro europeu em termos adequados à
actual situação política. Tal exigirá o envolvimento de todas as forças e
instituições nacionais.” José Sócrates reagiu logo de seguida através de um
telefonema. Diz-lhe: “As relações estão cortadas.” Pouco depois, chegava ao
iPad de Carlos Costa a mensagem esperada, e que talvez ainda guarde.
Portugal podia continuar mais tempo sem pedir assistência? Para Pedro Silva Pereira, a resposta é clara: “A ajuda externa só se pede quando é objectivamente incontornável e não há alternativas. Mesmo numa situação de pressão dos mercados, é preciso sempre ter em conta as consequências prolongadas na economia de um pedido de ajuda externa.” O que um PM faz “é perguntar às Finanças: qual é a perspectiva de colocar dívida nos mercados? A resposta condiciona a decisão.”
Portugal podia continuar mais tempo sem pedir assistência? Para Pedro Silva Pereira, a resposta é clara: “A ajuda externa só se pede quando é objectivamente incontornável e não há alternativas. Mesmo numa situação de pressão dos mercados, é preciso sempre ter em conta as consequências prolongadas na economia de um pedido de ajuda externa.” O que um PM faz “é perguntar às Finanças: qual é a perspectiva de colocar dívida nos mercados? A resposta condiciona a decisão.”
Por que razão
Sócrates atrasou até ao último minuto a ajuda externa? Marcelo opina: “Um misto
de voluntarismo convertido em teimosia, descolagem da realidade, confusão entre
o desejado e o real, alergia a ouvir opiniões adversas ou notícias
desfavoráveis. E, admito, cansaço.” Características que, para alguns,
prevaleceram sobre a análise fria da situação.
“Dizer que Sócrates continuou a rejeitar e teimosamente a ajuda externa é distorcer a realidade. Não foi, ao contrário do que se pretendeu fazer crer, uma obstinação pessoal”, diz Pedro Silva Pereira. E defende que o pedido surgiu “no tempo próprio, em 15 dias, logo que se materializaram nos ratings e nos mercados as consequências dramáticas rejeição do PEC IV.”
“Dizer que Sócrates continuou a rejeitar e teimosamente a ajuda externa é distorcer a realidade. Não foi, ao contrário do que se pretendeu fazer crer, uma obstinação pessoal”, diz Pedro Silva Pereira. E defende que o pedido surgiu “no tempo próprio, em 15 dias, logo que se materializaram nos ratings e nos mercados as consequências dramáticas rejeição do PEC IV.”
Sócrates, a
vítima da banca
Nos corredores de
São Bento, viviam-se horas de fim de festa. O primeiro-ministro estava condenado
a enfrentar a assistência externa. Conta quem ouviu: “Sentia-se encurralado,
vítima da acção dos banqueiros, do BdP e de Teixeira dos Santos.” A tese da
conspiração foi, aliás, replicada, a 2/12/2011, pelo deputado do PS João
Galamba, na AR, o que motivou troca de galhardetes com Carlos Costa. “A noção
que tive foi que o ministro das Finanças só actuou quando os bancos o
informaram de que já não estavam disponíveis para emprestar, e foi isso que
desencadeou o processo”, diz Mira Amaral. Faria de Oliveira garante: “Os
banqueiros não tiveram qualquer perspectiva de deixar o país colapsar.” “O que
determinou o bailout foi o chumbo do PEC IV, não o poder da banca, essa
estava asfixiada”, refere fonte bancária.
“Como fico melhor
a olhar...” 20h00. Sócrates deixara de ter condições
de resistir ao duelo. Está prestes a dirigir-se aos portugueses quando a TVI
inicia, inadvertidamente, a transmissão directa de São Bento. Antes de avançar
para aquela que poderá ser a sua última grande intervenção, na qualidade de
chefe de Governo, o primeiro-ministro dava uma vista de olhos ao local onde,
minutos depois, pronunciaria o discurso histórico de cinco minutos. Aparece em
mangas de camisa a apontar para os dois écrans transparentes, colocados à
esquerda e à direita, que servem de ponto: “Como é que fico melhor a olhar...” A
emissão é interrompida segundos depois, mas dá ideia do ambiente de
desorientação.
E Portugal
ajoelhou-se...
20h38. Era o gesto que muitos esperavam. Portugal declarava-se KO. Sócrates
está frente a frente com os eleitores. Fala pausadamente: “Estou firmemente
convencido, avaliadas todas as alternativas e depois de todos os contactos que
fi z, que [a situação financeira] tenderá a agravar-se se nada for feito.” Está
para chegar o recado: “Ao longo do último ano, lutei para que isto não
acontecesse. A verdade é que tinha uma solução e ela foi deitada fora.”
“Foi uma
vichyssoise”
Quinta-feira, 7
de Abril. Teixeira dos Santos, em Lisboa, e Carlos
Costa, em Frankfurt, estão de partida para Budapeste. Nesse mês, os ministros
das Finanças do euro realizam o encontro a que assistem os governadores dos
bancos centrais.
Na capital da
Hungria, a comitiva portuguesa janta. As luzes dos telemóveis não param de
piscar, a avisar que há mensagens. Uma importante. O assessor de José Sócrates
enviava a Álvaro Aguiar cópia da carta que o Governo dirigiu aos parceiros
europeus. Teixeira dos Santos faz um breve comentário: “Os procedimentos não
foram seguidos.”
Sábado, 9 de Abril. O episódio fala por si. O Expresso desse dia assinala dois factos. Um deles, é o manifesto Um Compromisso Nacional. O outro, respeita a um alegado almoço que teria decorrido entre Sócrates e o ministro das Finanças e onde foi decidido pedir ajuda. Foi então que se ouviu Teixeira dos Santos: “Se alguém me perguntar se é verdade, digo que foi uma vichyssoise [a refeição que nunca ocorreu e que Marcelo contou ter tido com Portas, onde foi servida uma vichyssoise].”
Sábado, 9 de Abril. O episódio fala por si. O Expresso desse dia assinala dois factos. Um deles, é o manifesto Um Compromisso Nacional. O outro, respeita a um alegado almoço que teria decorrido entre Sócrates e o ministro das Finanças e onde foi decidido pedir ajuda. Foi então que se ouviu Teixeira dos Santos: “Se alguém me perguntar se é verdade, digo que foi uma vichyssoise [a refeição que nunca ocorreu e que Marcelo contou ter tido com Portas, onde foi servida uma vichyssoise].”
Braço-de-ferro
com o FMI
Em Lisboa, a
condução do pedido de assistência internacional gerava um braço-de-ferro. Uma
fonte da esfera diplomática contou: “O primeiro-ministro pediu ajuda ao BCE e à UE e enviou para o FMI
cópia da carta com o pedido de ajuda às instâncias europeias.” Na sequência, o
FMI interveio junto da Embaixada de Portugal em Washington, que comunicou a
Lisboa: terá de haver um pedido de assistência formal ao FMI.
Quem não ficou
surpreendido foi Strauss Kahn. O mesmo responsável relatou um facto que
ocorreu, “ou no final de 2010, ou já em 2011”. “Houve um contacto de Lisboa, a
solicitar a Strauss Kahn que não deixasse António Borges ficar com
responsabilidades sobre Portugal.” O BdP aponta para uma recessão de 3,4% este
ano e a estagnação em 2013. Perante os números, quem garante que o PEC IV
dispensaria o FMI?
Muitas perguntas,
poucas respostas. Santos Silva expressou uma preocupação: “Hoje, como há um
ano, é fundamental o Governo e a actual maioria procurarem consensos tão
alargados quanto possível.” Ao cidadão comum, pouco mais resta do que cruzar os
dedos.
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