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terça-feira, 26 de julho de 2011

"Não acredito"

Memória

José Augusto. "Não acredito que a culpa seja só da FIFA"

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 26 de Julho de 2011  |  Actualizado há 3 horas
A 26 de Julho de 1966, Portugal joga com Inglaterra nas meias-finais do Mundial. O jogo está marcado para Liverpool. Na véspera é mudado para Londres. What da hell?!
José Augusto contra a bola e a gravidade, em 1966
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A FIFA é muito séria. Seríssima. Na questão da rotatividade dos anfitriões em Mundiais, por exemplo. No pós-guerra (Suíça em 1954 conta como país neutral em todos os sentidos) começa a dança entre Europa e América. À Suécia em 1958 responde-se com o Chile em 1962. Para 1966 há três candidatos. Europeus, claro. Inglaterra, RFA e Espanha. A 22 de Agosto de 1960, em Roma, durante o congresso da FIFA, é feita a eleição. A Espanha afasta-se e deixa a competição para os outros dois concorrentes. Acaba por ganhar a Inglaterra por 34 votos a 27.

Cumprida a fase de apuramento, em que Portugal sobressai como líder de um grupo com Checoslováquia (vice-campeã mundial em 1962), Roménia e Turquia, o sorteio da fase final é realizado a 6 de Janeiro de 1966. Aí ficam definidos os grupos. No A, Inglaterra, França, México e Uruguai. No B, Argentina, Espanha, RFA e Suíça. No C, Brasil, Bulgária, Hungria e Portugal. E no D, Chile, Itália, Coreia do Norte e URSS. A organização também mostra o caminho até à final a partir dos quartos-de-final, marcados para o dia 23 de Julho em quatro cidades inglesas. Nas meias-finais há um jogo a 25 de Julho em Liverpool e outro a 26 em Londres.

A competição começa a uma segunda-feira dia 11. A Inglaterra empata 0-0 com o Uruguai. Em Wembley, claro. Durante nove dias, 16 selecções entram em campo e há surpresas de todo o tipo. A desconhecida e amadora Coreia do Norte ganha 1-0 à Itália, enquanto o bicampeão Brasil é eliminado com duas derrotas, frente a Hungria e Portugal, em jogos curiosamente apitados por árbitros ingleses, que permitem tudo e mais alguma coisa contra Garrincha (nem defronta Portugal) e Pelé (abalroado por Morais em duas entradas arrepiantes). Os estreantes (Coreia e Portugal) espantam o mundo. Nos quartos-de-final, os dois encontram-se em Liverpool para o tal jogo memorável dos 5-3, com quatro golos de Eusébio a desfazer a vantagem de 3-0 dos asiáticos à passagem dos 24 minutos. Sabia-se de antemão que o vencedor desse jogo se manteria em Liverpool, à espera do resultado do Inglaterra-Argentina. Curiosamente a jogar contra dez durante 55 minutos, os ingleses lá ganham, 1-0. São 21h15 em Londres, no dia 23, e a meia--final de Liverpool está marcada para dali 45 horas e 15 minutos. Em Liverpool ninguém puxa pelos Beatles. Só dá Portugal. À conta de Eusébio e de mais uns valentes magriços (Coluna, Jaime Graça, José Augusto, Torres e Simões, para citar só a inseparável espinha dorsal), os adeptos daquela cidade apoiam freneticamente a selecção nacional, tal como a população de Middlesbrough acarinham os norte-coreanos. Entre Londres e Liverpool são 284 quilómetros de caminho.

No dia seguinte, a FIFA, curiosamente presidida pelo inglês Stanley Rous, decide alterar o programa de jogos. Em Liverpool, dia 25, joga-se a outra meia--final, entre RFA e URSS. Para Wembley, dia 26, está marcado o Inglaterra-Portugal. Significa isto que a selecção inglesa se mantém em Londres, de onde nunca saiu desde o início do certame, e é Portugal que tem de se mudar de armas e bagagens. Ok, ambas as selecções ganham um dia a mais de descanso, mas...

Para José Augusto - que marcou três golos nesse Mundial, todos de cabeça (dois à Hungria, na estreia, e outro à Coreia do Norte) - "a culpa [pela mudança de local] não pode ser só da FIFA. Não acredito que eles tenham chegado a acordo assim sem mais nem menos, sem reunir as delegações de Inglaterra e Portugal. Acredito que a federação portuguesa tenha ganho algum bónus por aceitar essa ideia. Diz-se que a própria sede da federação, na Praça da Alegria, foi comprada com esse dinheiro. E há outro pormenor: a imprensa portuguesa, que nos acompanhava para todo o lado e até estava instalada no nosso hotel, não falou muito do caso. Jornalistas como Artur Agostinho, Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Alves dos Santos. Porque será?" E os jogadores? "Aceitámos a mudança. Não nos podíamos insurgir. E íamos jogar a Wembley, que era sempre um prazer! Fomos de comboio na véspera, mas não foi por aí que perdemos a meia-final. Perdemos porque eles foram superiores e marcaram mais golos que nós. Tão simples como isso."

Eliminado Portugal, por 2-1 (Bobby Charlton-2; Eusébio), a Inglaterra qualifica-se para a final. Com a RFA. No prolongamento, com 2-2 no marcador, Hurst atira à trave, a bola ressalta na linha de golo e é afastada por um alemão. Golo ou canto? O árbitro suíço Gottfried Dienst conferencia com o fiscal--de-linha russo Tofik Bakhramov e este diz curiosamente que é golo!

Dúvidas? Até 2006, muitas. A partir daí, nenhuma. Um estudo do departamento de engenharia da Universidade de Oxford garante que a bola não entra na baliza por seis centímetros! Como é que se traduz "cheating" em português? Curiosamente.

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