
João Ferreira Marques
Diana Quintela
Diana Quintela
João Ferreira Marques trabalhou como analista na Fitch e na canadiana DBRS. Em entrevista ao DN/Dinheiro Vivo deixa elogios rasgados ao ambiente de trabalho das agências de rating, mas admite que era influenciável pelas entidades que estava a avaliar e que sentia pressão para não perder clientes. Apesar de reconhecer que “as agências andam atrás do mercado”, considera injustas as críticas que lhes têm sido feitas. Uma agência de rating europeia? “Ridículo.”
- Trabalhou com produtos estruturados no Finantia, Interbanco e BES Investimento
- Em 2002 foi contratado pela Fitch como senior credit analist
- Passou pelo Royal Bank of Scotland e ABN-AMRO
- Mais tarde entrou na agência de rating canadiana DBRS como consultor sénior
- Actualmente trabalha na Whitestar, empresa que gere carteiras de crédito malparado
- Em 2002 foi contratado pela Fitch como senior credit analist
- Passou pelo Royal Bank of Scotland e ABN-AMRO
- Mais tarde entrou na agência de rating canadiana DBRS como consultor sénior
- Actualmente trabalha na Whitestar, empresa que gere carteiras de crédito malparado
Hoje, João Ferreira Marques trabalha na Whitestar, uma empresa especializada na gestão de carteiras de crédito malparado. Criada em 2007 pelo banco de investimento Lehman Brothers, tem como objectivo gerir ou vender carteiras de crédito a investidores especializados. “Este mercado esteve parado e parece-nos que se vai relançar, nomeadamente com as regras da troika para a desalavancagem da banca. Os bancos podem limpar o balanço, sendo vistos de forma mais confortável pelos investidores que os podem financiar”, explica, acrescentando que as alterações metodológicas ao cálculo do crédito malparado pode fazê-lo disparar para perto do dobro do que está agora. “Os bancos serão pressionados a tomarem atitudes, que até são melhores para eles.”V
Começou a trabalhar na Fitch em 2002. Devia haver poucos portugueses.Conhecia cinco. E eram só mesmo esses. Na S&P acho que nem um havia. E estamos a falar de empresas com centenas de trabalhadores. Não percebo por que há tão poucos portugueses.Como era o trabalho numa agência de rating?As agências criam um ambiente leve, académico, onde não existe a pressão diária de resultados ou entre os colegas, o que é contrário à percepção geral. E eu digo isto estando agora a lutar do outro da barricada, na banca.Não me diga que tinham uma sala de jogos?Não, não. Não chegamos a esse ponto. O meu ponto de comparação são salas de mercados [risos]. Barulho, 500 pessoas num piso... Quando falo de um ambiente mais calmo, quero dizer menos pressão e horários de trabalho cumpridos. Há picos e excepções, mas têm cuidado para ver se o analista está sobrecarregado. São organizações muito horizontais, onde os os títulos são mais prémios de experiência.E o salário?Muito mais baixo em relação à banca. Nem tem comparação.No mundo financeiro, as agências de rating pagam mal?A diferença era abismal. Salários quatro, cinco ou seis vezes mais baixos, para pessoas com a mesma experiência e qualificação.A ideia generalizada é que os analistas de rating são falcões. É assim?Se tivessem o perfil de banqueiros de investimento, sim. Ali não. Nem sequer têm de ir para o trabalho de fato e gravata, a não ser para visitar clientes.Tinha amigos na Fitch? O que costumavam fazer nos tempos livres em Londres?Sim, saíamos. [levanta um copo com a mão] Este hábito inglês é terrível. Estou a falar de coisas de coisas normais: jogos de futebol, às vezes organizados dentro da própria empresa. Pessoas normalíssimas, que convivem ao final do dia de trabalho.O dia de publicação do rating é muito stressante?Não sei como é agora, porque nada é comparável ao mediatismo actual. Antes era apenas uma formalidade. Até porque os investidores fazem essa estimativa. Basta olhar para os juros dos países no mercado secundário para perceber que as agências andam atrás do mercado. O que é um facto. Hoje em dia deve haver mais nervosismo porque, desde a crise financeira de 2008, as agências estão sob pressão. E uma coisa que elas ainda não fizeram foi acções de marketing. Também é um problema de relações públicas?Repare que quem faz os comunicados são os próprios analistas. Mesmo quando falam à imprensa, dá para perceber que não são propriamente mestres de comunicação. Não são treinados para isso e não se esforçam.Já alguma vez teve de dar um rating de "lixo"?Claro. Várias vezes. Esse conceito é americano e refere-se a investimento especulativo. O termo no mercado europeu é high yield (alto rendimento). Grande parte dos ratings dados ficam abaixo de BBB. Agora é que é mais mediatizado.Mas para países não era assim tão normal.Sim, para economias europeias não era normal. Embora eu já tenha trabalhado como analista na Grécia e realmente de europeus têm pouco.O rating da Grécia faz sentido?Não concordo com parte do processo. Sempre considerei que as agências não lidam bem com timings. Não é teoria da conspiração.. Eles desligam-se mesmo do mercado. Se tiverem um ou dois terminais Bloomberg por piso é muito e nem utilizam.As críticas às agências têm sido injustas?Sim. Agora é moda criticar e há uma grande ignorância. Muitas entidades com rating cometeram erros. Contrataram as agências quando precisavam de alargar a base de investidores e não se preparam para situações mais complexas e de negociação. Só há pouco tempo é que soube que Portugal pagava para ter rating. O que é uma tolice. Eles iriam sempre dar um rating a um país da União Europeia. Lisboa ou outros municípios faz sentido, agora a República...Sentia pressão das entidades que estava a avaliar?Sentia sem dúvida nenhuma essa pressão e éramos razoavelmente influenciados por isso. Não era uma questão de ganhar dinheiro, mas sim de quota de mercado. Estamos sempre a falar de coisas mínimas, claro. Quem emitia dizia "eu só preciso desse rating, se não chegas lá, estás fora". Esse é o problema essencial das agências e foi logo identificado em 2008. O que é uma contradição com as críticas que se colocam hoje. As agências foram acusadas de estarem a beneficiar os emitentes, agora diz-se que são aliadas dos investidores.Esses episódios continuam a acontecer?Não. Agora é o oposto. Eu sei porque estou do outro lado e tento colocar alguma pressão. Desde 2008, eles simplesmente desligam o telefone e se lhes disser que podem perder o negócio eles dizem "tudo bem".Depois da Fitch trabalhou na agência canadiana DBRS. Quais são as principais diferenças?A DBRS tem uma filosofia totalmente diferente das outras três grandes, apostando numa equipa mais sénior. O modelo de recursos humanos das agências era ter um capital humano bastante jovem para o nível de remuneração não ser muito pesado. Sempre tiveram margens fantásticas. A DBRS tem uma filosofia diferente, o que facilita o trabalho, e faz com que sejam mais técnicos.São mais pacientes?É uma perspectiva diferente, mas tem tudo a ver com opiniões. O rating soberano, por exemplo, é muito mais opinativo. Não há duas economias iguais. Há quem defenda uma descida de rating dos EUA, mas já pensaram nas consequências disso?Mas afinal as agências devem preocupar-se com as consequências dos seus ratings? Na crise da zona euro isso não parece ser uma preocupação.Nesse caso, entrou-se num braço de ferro entre a Comissão e as agências. Em relação à Grécia, foi sugerido que as agências não classificassem como default, algo que os parâmetros delas dizem que é um default.E o recente corte feito pela Moody"s a Portugal?Podemos dizer que a probabilidade de default de um BB (classificação de Portugal) não anda longe dos 15%. Se alguém lhe perguntar se 15% de hipóteses de a dívida portuguesa ser reestruturada é assim tão fora do possível, o que responderia? Eu diria que até é potencialmente superior. 15% é um número simpático. Isto também tenha a ver com metodologias. A Moody's olha para elementos mais especulativos que as outras agências não consideram, como os contratos de CDS (credit default swaps).O que acha da ideia de criar uma agência de rating europeia?É uma ideia ridícula achar que uma agência pode substituir as outras. Se eu tentasse colocar dívida no mercado utilizando o rating da agência portuguesa ou da chinesa, não colocaria um euro. Tenho dúvidas que os investidores liguem a uma agência europeia, porque ela está a ser criada devido a um sentimento de injustiça de quem emite dívida. A solução passa por haver condições para mais concorrência.Identifica outros problemas?O facto de o BCE ter mecanismos 100% dependentes das três grandes agências de ratings é surreal. Critica as opiniões das agências, mas depois limita as alternativas? Não sei se a palavra certa é hipocrisia...
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