

Horas antes de ser morta, no Brasil, a companheira de Lúcio Feteira contou como receitas da herança ainda indivisa do milionário português estariam a ser desviadas ilegalmente.
Numa 'lanchonete' de rua, já de noite, Domingos Duarte Lima esperou a cliente. Tinham combinado um encontro às 20 horas para essa segunda-feira, dia 7 de Dezembro de 2009. O advogado voou de propósito de Lisboa para Belo Horizonte, dois dias antes, e fez depois os 460 quilómetros até ao Rio de Janeiro de carro. Rosalina da Silva Cardoso Ribeiro não queria falar pelo telefone. O assunto era demasiado delicado e urgente para só ser abordado quando ela regressasse a Portugal no dia 12. A cliente ligara-lhe de uma cabina pública a acertar a hora e o local e não disse às amigas com quem ia ter. Era suposto ser segredo.
De pasta na mão, a septuagenária portuguesa desceu do sétimo piso do número 60 da praia do Flamengo, no centro do Rio de Janeiro. Contornou a esquina, entrou na 'lanchonete' (pastelaria) e sentou-se a uma mesa com Duarte Lima, antes de ser executada por um assassino profissional, duas horas e um quarto mais tarde, às 22h15, a 65 quilómetros dali, para norte, no município de Maricá, com duas balas de calibre 38, uma na cabeça e outra no peito (o corpo seria encontrado sem a pasta de documentos e sem a carteira, mas com o relógio e as joias).
Durante o encontro de meia hora, na 'lanchonete', Rosalina aconselhou-se com o advogado sobre dois temas, pelo que Duarte Lima veio a contar depois ao delegado Filipe Ettore da divisão de homicídios da polícia civil do Rio de Janeiro. O primeiro era um negócio, o segundo uma denúncia.
Vender o testamento
A antiga secretária e companheira de Lúcio Thomé Feteira, falecido em 2000 aos 98 anos, queria pôr um ponto final na disputa que há quase dez anos mantinha nos tribunais com a filha única do empresário português, Olímpia Thomé Feteira de Menezes, sobre a repartição de uma herança de várias dezenas de milhões de euros. E a forma que encontrou foi vender a posição dela deixada em testamento de 2,5% sobre todo o património do milionário (o equivalente a 15% da herança legalmente disponível), mesmo sabendo que, pelos tribunais, naquele momento, não tinha direito a nada. A decisão a seu favor, por um tribunal de Lisboa de primeira instância, só seria conhecida três dias após a sua morte.
Desde o início de Setembro de 2009, quando viajou de Portugal para o Brasil, que Rosalina estaria a estudar no Rio de Janeiro duas ofertas para comprarem a posição dela na herança, de acordo com uma fonte próxima de Duarte Lima. O antigo líder parlamentar do PSD coordenava desde 2001 a equipa luso-brasileira de advogados da septuagenária criada para disputar a herança mas só soube em Outubro do ano passado, pelo seu colega brasileiro Romando Ventura, das intenções da cliente em se desfazer dos direitos à herança.
Na pastelaria, e ainda segundo a mesma fonte, Rosalina terá explicado ao advogado que havia duas pessoas interessadas no negócio. Uma delas era uma mulher de nome Gisele, com quem se tinha encontrado várias vezes e que lhe dera um prazo até Dezembro para se decidir a vender. A outra era Arlindo Guedes, dono de uma empresa de extração de areia. Há três anos que a Mineração Santa Joana tinha um contrato de exploração para tirar areia da fazenda Pedra Grande, a maior propriedade do espólio Feteira no Brasil, com mil hectares, em Maricá, o município onde a portuguesa acabou assassinada.
Foi neste contexto que a cliente terá contado a Duarte Lima ter descoberto que 50% da renda mensal da concessão não estava a ser depositada na conta do espólio de Thomé Feteira em Lisboa, como seria obrigatório, uma vez que a herança ainda não foi distribuída. Estas verbas estariam a ser desviadas para a conta de um capataz da fazenda, homem de confiança de Olímpia Feteira de Menezes, lançando suspeitas sobre a sua rival.
Dinheiro desviado
Ao Expresso, Olímpia desmentiu que haja qualquer desvio. "Metade desse dinheiro vai para a conta do espólio em Lisboa e a outra para uma conta da SEAI, a empresa no Rio de Janeiro que gere a fazenda e que também faz parte do próprio espólio, porque era detida a 99,9% pelo meu pai".
A versão de Olímpia é confirmada por Arlindo Guedes, que acrescenta alguns pormenores sobre a tentativa de negócio com Rosalina. "A iniciativa foi minha, mas eu só estava interessado na parte pequena que ela detinha na fazenda. A primeira coisa que fiz foi contactar o advogado dela no Rio de Janeiro, Romando Ventura, em Julho do ano passado. Como não tive retorno, em Outubro conheci-a através de um amigo comum". Os dois encontraram-se três vezes, a última das quais a 4 de Dezembro. "Só falámos do negócio no primeiro encontro. Nem abordámos valores. Ela disse-me que era melhor esperar que a herança ficasse decidida em tribunal. Depois, iniciámos uma amizade. Cheguei a ir a casa dela com a minha filha e fui apresentado a Maria Alcina, a sua melhor amiga".
Arlindo adianta que ficou admirado por Rosalina lhe contar que Romando não a informara de nada no verão. "E estranhei também ela me comentar que o advogado em Portugal lhe dissera para não falar com ninguém".
Quanto a Gisele, a outra interessada no negócio, Arlindo diz que nunca ouviu falar dela. E esse é o maior problema na versão que Duarte Lima apresentou às autoridades brasileiras. O advogado contou que saiu da pastelaria com a cliente e ofereceu-se para a levar até ao centro de Maricá, até à porta do hotel Jangada, para se encontrar com Gisele. Seriam 22 horas quando a deixou entregue a uma mulher loira, com mais de 40 anos e um Honda preto. Quinze minutos antes de morrer. Nos últimos oito meses, e apesar da notícia da morte de Rosalina nos jornais, Gisele nunca deu sinais de vida. Para a polícia brasileira, há três hipóteses: ou Gisele matou, ou Gisele morreu, ou Gisele não existe. Continuam as três em aberto.
O voo para Belo Horizonte Duarte Lima não explicou por que viajou de Lisboa para Belo Horizonte, dois dias antes da reunião com Rosalina. São cinco horas e meia de carro até ao Rio.
A urgência do encontro O advogado foi chamado para estar no Brasil no dia 7 numa reunião de meia hora, quando a cliente estaria em Lisboa a 12.
A boleia até Maricá Levou a cliente a Maricá, a uma hora do Rio, para um encontro de negócios à noite, relacionado com a reunião que tiveram logo antes, mas não ficou com ela.
Um álibi sem testemunhas Estava sozinho a conduzir um carro alugado no momento em que a cliente foi assassinada. Não se recorda onde o alugou.
A mulher que não aparece Contou à polícia que deixou Rosalina com uma mulher loira de nome Gisele, junto ao hotel Jangada, em Maricá, mas ela ainda não foi identificada.
A transferência de 5,2 milhões Em 2001, Rosalina transferiu mais de 5 milhões de euros para uma conta de Duarte Lima. Não se sabe porquê.
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